Vamos ao tarô:
suponha-se como carta da personalidade e do caráter, a carta da High Priestess, a Papisa, o que, em princípio, faria de seu feliz portador, digamos, quase um guru. O “saber”, o “conhecimento” estão bem sintetizados na figura da Papisa. Saberes intuitivos, misteriosos, profundos. Acontece que a figura - feminina - também está associada com a passividade, com um “estar receptivo” indispensável para “manter contato com o inconsciente”, função própria da Papisa, mas que não ajuda muito quando se precisa ser capaz de agir. Digo isso para dizer que pode haver, então, um impulso passivo dominante, no sentido estrito da palavra dominante. Uma tendência a paralisar! Então, o único caminho que se acaba por encontrar para a mudança é o da observação, da aceitação muito lenta, paciente. O aspecto bom disso é justamente o de ir construindo sabedoria, conhecimento. Observar como quem medita. Auto-observar-se. Auto-conhecer-se. Auto agüentar-se!!! O lado obscuro é o de perder o bonde da História. O de ficar só “vendo a banda passar” pra depois voltar, cada qual no seu canto, em cada canto uma dor.
O movimento, no tarô, está muito associado com O Carro, ou A Partida, a figura de nº VII. 07, ou 03 + 04 é a junção do triângulo divino com o quadrado do mundo material. Esta mesma junção está representada na perna em forma de nº 04 e os braços em triângulo do Enforcado, aquele que paradoxalmente está impossibilitado de se mover. Que outras cartas versam sobre o movimento no tarô? A Roda da Fortuna, sem dúvida, mas que se refere ao movimento cíclico, aquele movimento eterno da própria existência, aparente também na “dança” do arcano XXI, o Mundo. Ao contrário, o movimento do Carro tem direção, assim como o da Morte. Leva de um lugar a outro. Neste novo lugar, claro, o ciclo terá início outra vez, mas o assunto, ali, não é o ciclo e sim o movimento, o mover-se, ou, em suma, o agir. Para agir é preciso haver condição e força. Várias cartas versam sobre estes aspectos, igualmente. Mas há uma delas que trata do movimento direcional, não cíclico e de uma forma inusitada: a Torre. A Torre é o susto! O abalo sísmico inesperado, o acidente, a surpresa, a força condicionante, mas que atua “de fora pra dentro”. O número da Torre é 16. Somado transversalmente 01 + 06 = 07, o Carro! A associação com o dito popular é imediata: “a água quando bate na bunda, neguinho sai nadando”. A soma interna do 16 produz o 07. E assim: ao passivo, às vezes, lhe fazem bem os solavancos. “Topada também toca pra frente”!
E há o perigo de “virar uma rocha”. Perder la ternura. Também a Torre fala sobre isso. A Torre como aquele lugar aonde a gente vai para se proteger e que, por ser alto (do tamanho do nosso orgulho), parece vistoso. Vem uma pluma (o raio que derruba a Torre, às vezes é desenhado como um raio, às vezes como uma… pluma!) e rebenta a torre bem no topo. E o alto da Torre é sempre em forma de coroa! Uma glande dourada - cravejada de pedras preciosas, adornando a priápica construção que aponta para o céu. E do tombo vem o movimento; o movimento da Roda, aquele do destino, aquele sobre o qual a gente ainda não exerce controle, a não ser o de procurar estar sempre, na Roda, próximo do centro. No centro da Roda, os giros são mais bem absorvidos. Que metáfora linear, né? centro - estar “centrado”, menos suscetível aos “giros” da Fortuna. Eita, carteado divertido, pessoal, esse tal de tarô!




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