Fazendo da vida pública uma extensão da privada
Por fim chegou o 2 de junho, dia da coroação e do maior problema que Chateaubriand iria enfrentar naquela agitada temporada: acometido de uma infecção na próstata, ele era obrigado a urinar a cada meia hora (Paulo Albuquerque, seu médico do Rio, chegara a aconselhá-lo a desistir da aventura londrina, pois se sabia que a cerimônia da coroação duraria cinco horas sem interrupções). Mas o jornalista já havia planejado em segredo a solução: vestiu um grosso sobretudo sobre a casaca, e com uma gilete abriu dois taIhos nos forros dos bolsos do casaco de lã. Pediu ao bar do hotel duas garrafas vazias de Coca-Cola e enfiou cada uma num bolso do capote. Às oito da manhã, conforme mandava o protocolo, dirigiu-se à Abadia de Westminster.
Com todos os chefes e subchefes de delegações devidamente instalados em seus lugares, finalmente Elizabeth II apareceu na porta principal da nave. Sob os olhares de presidentes, primeiros-ministros, príncipes, reis e rainhas que se puseram de pé, ela atravessou em passos lentos, quase imperceptíveis, a extensão que separava a porta principal do trono instalado no fundo da abadia. A cinco metros de distância daquela que, minutos depois, seria a soberana de oito nações, 65 protetorados e de uma população de 600 milhões de brancos, negros e amarelos que compunham um quinto dos habitantes do planeta, Chateaubriand enfiou as mãos nos bolsos do sobretudo, desabotoou a braguilha, tirou o pênis para fora e urinou aliviado, tomando o cuidado de não errar a pontaria ao mirar no minúsculo gargalo da garrafa vazia de Coca-Cola.
Quando Elizabeth II se colocou de costas para o espaldar do trono e postou-se de frente para o homem que iria coroá-la - Geoffrey Francis Fischer, primaz da Inglaterra e arcebispo de Canterbury -, Chateaubriand já havia enchido quase meia garrafa. Só às onze e meia da manhã (nessa hora toda a primeira garrafa tinha sido completamente abastecida) é que o arcebispo iniciou o ritual: segurou no ar, sobre a cabeça da futura rainha, a coroa de santo Eduardo, e virou-se sucessivamente para o norte, o sul, o leste e o oeste, como se estivesse se dirigindo aos povos da Comunidade Britânica espalhados por todos os quadrantes do planeta, e indagou:
- Senhores: eu vos apresento a rainha Elizabeth II, a vossa rainha incontestável. Por isso pergunto a vós todos que aqui viestes: estais dispostos a render-lhe homenagem e prestar-lhe vossos serviços?
Chateaubriand aproveitou o som dos clarins e das gaitas de foles que enchiam a abadia para repetir pela décima vez a operação: abriu a braguilha, tirou de novo o pênis para fora, cuidadosamente, e inaugurou a segunda garrafa despejando nela um curto e reconfortante jato de urina. Os representantes de todas as colonias e protetorados ali presentes responderam em coro à pergunta do arcebispo de Canterbury: - Deus salve a rainha Elizabeth!
A liturgia durou as exatas cinco horas previstas pelo protocolo. Quando a cerimônia chegou ao fim, Chateaubriand esgueirou-se por entre a multidão de chefes de Estado que caminhavam em direção contrária, rumo à porta de saída, foi até um dos banheiros da abadia e depositou no chão as duas salvadoras garrafas.
Fernando Morais - Chatô, o Rei do Brasil



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