Uma extensão da privada - II
Sob a supervisão do naturalista capixaba Alfredo Ruschi, de quem Chateaubriand ficara amigo ainda nos anos 50, o jardim da Casa Amarela foi cercado por uma gigantesca gaiola, que tomava toda a fachada do imóvel, do chão ao telhado, feita de fina tela de arame, onde passaram a ser criadas centenas de beija-flores. "Esse viveiro é o passaporte da delicadeza", dizia Chateaubriand, "que ameniza a passagem dos paulistas civilizados que chegam da rua para visitar um rude jagunço nordestino." E, com a conspiração para o golpe militar que se avizinhava, era cada dia maior o número de paulistas e brasileiros em geral - mais ou menos civilizados - que cruzavam os jardins do casarão da rua Polônia. Aos poucos, a Casa Amarela se transformava num ponto obrigatório de encontro de civis e militares ostensivamente empenhados na derrubada do presidente João Goulart. A qualquer pretexto, o jornalista oferecia almoços e jantares - para os quais eram invariavelmente convidadas altas patentes militares envolvidas no golpe - nos quais o assunto principal era sempre a estaca que se cravava cada vez mais fundo no coração do regime e que, entre 31 de março e 1º de abril de 1964, iria exorcizar a todos do lobisomem que aterrorizava aqueles convivas: o fantasma dos comuno-pelego-petebistas, como a grande imprensa costumava tratar os apoiadores de Goulart. Também infalível era a sobremesa desses ágapes: discursos escritos por Chateaubriand vergastando João Goulart e a camarilha vermelha que o cerca, cada dia lidos por um personagem diferente. Ser escolhido para ler nessas cerimônias um discurso de Chateaubriand era uma honraria que às vezes cabia a seu principal executivo, João Calmon (agora eleito deputado federal), às vezes à enfermeira Emília Araúna, a um dos próprios convidados ou, ainda, a um nome escolhido dentre os mais destacados speakers ou atores do cast Associado: um dia era Paulo Cabral de Araújo, ex-locutor da Rádio Clube do Ceará e agora diretor de O Jornal, outro dia era o teleator Lima Duarte - um dos preferidos de Chateaubriand.
Desde que começara a conspirar contra Jango, nos primeiros meses de 1963, até a eclosão do golpe, em abril de 1964, foram raros os artigos escritos por Chateaubriand que não tratassem de política nacional. Quando não estava açoitando a reforma agrária, a UNE, o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) ou o poder dos sindicatos, o jornalista costumava dedicar-se a cândidas reminiscências da infância, da adolescência ou do período em que vivera na Europa, na virada dos anos 10. Às vezes exagerava, ao afirmar que aos dezoito anos já usava guarda-costas ("Por uma questão de hábito, sempre andei com capangas. Uso escolta desde 1910"), outras dedicava-se a contar sua convivência de meio século ("um verdadeiro caso de amor ") com um octogenário que ele chamava de mobiliário sentimental da Casa Amarela: seu eterno mordomo Henri Gallon. Da família, quase nunca falava. E quando o fazia era para revelar, sem qualquer cerimônia, a cruel relação que mesmo depois de doente continuava a manter com os filhos - chegando, inclusive, a renegar publicamente a indiscutível paternidade de Gilberto (que, ironia do destino, cada dia se parecia mais fisicamente com o pai): "João Calmon só me desobedeceu duas vezes - a primeira e a segunda foram quando mandei demitir meu único filho varão da direção do Diário de Pernambuco, que ele ali colocara. A terceira ordem de demissão do diretor rebelde ele não ousaria deixar de executá-la: estava em jogo a disciplina. [...] Para mostrar a secura da minha alma, basta dizer que torci o pescoço da minha filha e do filho varão que possuo. O outro, adotei-o; não tem uma gota do meu sangue".
Não era a família, entretanto, o que o preocupava. O Chateaubriand dos primeiros meses de 1964 estava empenhado em uma verdadeira cruzada para "salvar a ordem capitalista ameaçada pela corja vermelha que ocupa o Palácio do Planalto". Com seu único dedo funcional, passava o dia na IBM disparando petardos para todos os lados. Nem os amigos a quem ele devia tantos favores como Juscelino Kubitschek, agora senador pelo estado de Goiás, escapavam. Quando a convenção nacional do PSD o escolheu candidato à sucessão de Goulart, nas eleições marcadas para o ano seguinte, o jornalista fuzilou-o como "um agente de Marx e Lenin, urrando como um boi vadio para o curral reformista". Para Darcy Ribeiro, chefe da Casa Civil de Goulart, Chateaubriand também reservava adjetivos pesados: "Não é um fanático; menos um neurótico; jamais um histérico: ele é simplesmente um velhaco que resolveu ganhar a vida fazendo canais de exploração através deste fraco presidente para operar as esquerdas e trazer as massas aos seus planos infernais". Preocupado com a atuação de Arraes, "o Mefistófeles do Nordeste", perguntava indignado: "E onde anda o IV Exército, que nada faz?". Quando o governo decretou o regime de cinco horas de trabalho diário para os jornalistas, Chateaubriand esperneou contra "a determinação obscena", afirmando que "o verdadeiro homem de imprensa, que palpita dentro de seu ofício, como os repórteres Tico-Tico, Carlos Spera e Nelson Gatto, não pode se sujeitar ao relógio, porque a notícia não acontece com hora marcada". Aproveitou para protestar contra a inflação, revelando que a folha de pagamento dos Associados de São Paulo saltara de 80 milhões de cruzeiros em dezembro de 1963 para 200 milhões em janeiro de 1964 (de 138 mil para 346 mil dólares de então).
No dia de 13 de março, quando o presidente João Goulart realizava o célebre "comício das reformas" no Rio de Janeiro, Chateaubriand oferecia na Casa Amarela um grande almoço ao banqueiro Amador Aguiar, dono do Bradesco - na verdade, apenas mais um pretexto para juntar os conspiradores. Como aperitivo, o jornalista pediu a Lima Duarte, "o único locutor da Tupi com voz de barítono verdiano ", que lesse seu discurso do dia - uma verdadeira conclamação ao levante popular -, que, como todos os anteriores, seria publicado no dia seguinte como artigo nos jornais Associados: [...] "Só temos uma mensagem para mandar aos inimigos da paz pública. Será irmos para as ruas, como já fizeram os homens e as mulheres de Minas Gerais, chuçar as hordas marxistas que o governo arregimenta e comanda, de acordo com os planos do comuno-nacionalismo. A montagem levantada contra a livre empresa e que pede cobertura para a marcha contra a Constituição tenta levar o Exército e as massas a ocuparem São Paulo e o Brasil, em nome de doutrinas e métodos que são o oposto de tudo o que se edificou nesta terra. Somos nós que vamos assumir a ofensiva. Nós é que vamos defender a nação espoliada por carreiristas e aventureiros, candidatos a uma ditadura das esquerdas".
Dias depois do comício, o governador Magalhães Pinto apareceu na Casa Amarela levando nas mãos a cópia de um manifesto à nação que pretendia que fosse assinado por todos os governadores contra o governo - articulação que, naturalmente, não chegou a progredir. Em uma reunião solene - da qual participava, entre outros, a pudica Lily Whitaker Gondim, presidente de O Cruzeiro -, Magalhães contou que fizera contatos com os governadores Nei Braga, do Paraná, Petrônio Portela, do Piauí, Seixas Dória, de Sergipe, e até com Miguel Arraes, de Pernambuco. Antes de avançar em seu plano, o governador mineiro queria ouvir a opinião de Chateaubriand sobre os termos do documento. Alguém leu o manifesto e Magalhães quis saber o que Chateaubriand achava dele. Com a voz quase inaudível de sempre, o jornalista desculpou-se, dizendo que estava meio afônico, com pouco fôlego, e pediu a um enfermeiro que fizesse pressão sobre seu esôfago para que a voz saísse melhor. Com um sorriso maroto nos lábios, em vez de qualquer palavra ele soltou um sonoro peido, e, diante do olhar atônito de todos, declarou, risonho: - "Essa é a única resposta que posso dar a um manifesto que tem a assinatura de Seixas Dória e de Miguel Arraes".
Fernando Morais - Chatô, o Rei do Brasil



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