Friday, July 10, 2009

Com esses pensamentos costumeiros fui andando pela rua molhada de um dos mais tranquilos e antigos recantos da cidade. Do lado oposto destacava-se na escuridão um velho muro de pedra que sempre tive prazer em olhar. Velho e sereno, situava-se entre uma igrejinha e um antigo hospital. Frequentemente, durante o dia, era em sua áspera superfície que meus olhos descansavam. Havia poucos locais assim tão quietos e aprazíveis no centro da cidade, onde o usual era que em cada canto houvesse algum comerciante, ou advogado, ou charlatão, ou médico, ou barbeiro, ou calista apregoando o seu nome. Desta vez, também, o muro era pacífico e sereno; entretanto, alguma coisa nele havia mudado. Fiquei surpreso ao ver uma pequena e delicada porta ogival aberta em meio ao muro, pois não conseguia lembrar-me se aquela entrada já existia ali ou se tinha sido recentemente feita. Pareceu-me antiga, antiquíssima sem dúvida; possivelmente aquela porta fechada, com suas folhas de madeira escura, desse, desde há alguns séculos, para o interior de um pátio de convento. É possível que já tivesse visto aquela porta centenas de vezes e nunca reparasse nela; talvez a tivessem pintado recentemente e isto me atraísse agora a atenção para ela. Fiquei parado algum tempo, olhando para o outro lado da rua, mas sem atravessar, pois a rua estava cheia de lama; permaneci na calçada, olhando simplesmente para o outro lado. Escurecera bastante, e me pareceu que em torno da porta se desenhava uma auréola ou guirlanda multicor. E quando me esforcei por examiná-la, distingui sobre o portal um escudo luminoso, em que me pareceu haver alguma coisa escrita. Como não conseguisse ler do outro lado, atravessei a rua, apesar das poças d'água. Então vi sobre o portal, desenhado sobre o esverdeado sujo da parede, um retângulo esbranquiçado, sobre o qual corriam letras maiúsculas, que apareciam e desapareciam com grande rapidez. Também já aproveitaram este velho muro, pensei, para anúncios luminosos! Enquanto isto, consegui decifrar algumas das fugitivas palavras; eram difíceis de ler e davam lugar a muitas confusões por virem as letras separadas por espaços desiguais, e se acenderem muito débeis para logo se apagar. A pessoa que quisesse fazer propaganda com aquele anúncio não devia ser muito inteligente; seria algum lobo da estepe, algum pobre-diabo. Por que deixar aquelas letras correrem, naquele muro, situado numa ruela escura da parte velha da cidade, àquela hora, com um tempo tão chuvoso, quando ninguém passava por ali, e por que eram letras tão extravagantes, tão fugazes, trêmulas e ilegíveis? Mas, espere! por fim eu conseguia ler, uma após outra, várias palavras que diziam:

TEATRO MÁGICO

ENTRADA SÓ PARA OS RAROS

SÓ PARA OS RAROS

Tentei abrir a porta, mas a velha e pesada aldrava não cedia. O letreiro luminoso se apagara de repente, triste ao comprovar sua inutilidade. Dei alguns passos atrás, acabei pisando na lama e não consegui ver mais as letras; o anúncio desaparecera por completo, e por muito tempo permaneci de pé, em meio à poça d'água, mas esperei em vão.

Quando então desisti e regressei ao passeio, vi, refletidas sobre o asfalto brilhante, umas poucas palavras luminosas.

Li:

SÓ... PA... RA... LOU... COS!

Tinha os pés molhados e estava tiritando; não obstante, detive-me algum tempo a esperar.

Nada mais. E enquanto esperava, pensando em como as letras haviam dançado tão belas no muro úmido e no negro asfalto luzidio, veio-me à memória um trecho dos meus últimos pensamentos: a similaridade que havia entre o letreiro e a trilha dourada que, de repente, se tornava distante e inencontrável.

Sentia frio e continuei a andar, sonhando com a trilha dourada, ansiando pela porta daquele teatro mágico só permitido aos loucos. Havia chegado, entretanto, à praça principal, onde não faltavam distrações noturnas; a cada passo havia cartazes e pendiam letreiros anunciando as atrações: Orquestra Feminina, Variedades, Cinema, Dancing — mas, nada daquilo era para mim, tudo aquilo era para os normais, as pessoas comuns, todos aqueles que eu via entrarem pelas portas em tropel. Todavia, minha tristeza se desvanecera um pouco, pois fora saudada com um aceno do outro mundo: algumas letras saltitantes haviam tocado minha alma e plangido suas cordas secretas; um resplendor da trilha dourada se fizera novamente visível.

Herman Hesse - O Lobo da Estepe

No comments: