Ontologia fundamental
Ontologia fundamental nomeia a principal característica de Ser e tempo: é a tentativa de desconstrução da metafísica e de elaboração da analítica da finitude, tendo como ponto de partida uma fenomenologia hermenêutica das estruturas do ser-o-aí.
O ponto de confluência dessas tarefas é enunciado já na epígrafe do livro - tão incisiva quanto o título e que indica, de modo conciso, o centro nevrálgico do pensamento de Heidegger: a pergunta pelo sentido do Ser. A raiz dessa pergunta está plantada no solo do pensamento grego. Heidegger recorre a uma citação de O sofista, de Platão, para enunciá-la de modo paradigmático: "Uma vez, pois, que nos encontramos em dificuldade, caberá a vós explicar-nos o que entendeis por este vocábulo 'ser'. Evidentemente essas coisas vos são, de há muito, familiares. Nós mesmos, até aqui, acreditamos compreendê-las, e agora nos sentimos perplexos".
Ao longo de sua história, a filosofia ocidental preocupou-se sempre com o Ser, de modo que seria razoável esperar que, de há muito, estivéssemos familiarizados com o significado desse termo. Perguntas concernentes aos predicados mais gerais do ser (categorias) ou à distinção entre o ser e o devir, a realidade e a aparência, sempre constituíram o foco de atenção e meditação da filosofia.
Como se explicaria, então, que Platão, um dos maiores ícones da filosofia, tenha delegado à voz de um sofista a constatação perplexa de que não estamos familiarizados com aquilo que pensamos quando empregamos a palavra "ser"? Embaraçoso é constatar que até agora acreditávamos sabê-lo, mas, em verdade, carecemos de uma explicação que nos livre da dificuldade de não compreender o que propriamente pensamos quando dizemos "ser".
Assim, já estaria em Platão a suspeita de que a filosofia desconhece o que é pensado sob o termo "ser" - ainda que seja o mais empregado ao longo de sua história. Escândalo e pasmo, portanto, uma pedra de tropeço. Ser e tempo é uma das tentativas mais radicais da filosofia contemporânea para retomar essa pergunta em toda sua envergadura. Saberíamos nós o que Platão confessava desconhecer? A resposta de Heidegger é: não, de modo algum.
Ora, qualquer resposta pertinente só pode ser dada e, sobretudo, compreendida quando a pergunta a que ela responde é adequadamente formulada. Daí a suspeita de que nem Platão, nem a história da filosofia inteira ofereceram uma resposta pertinente à pergunta pelo sentido do Ser. E isso ocorre porque a pergunta não foi propriamente formulada, o questionamento não foi suficientemente pensado.
Essa perplexidade oferece a Ser e tempo o seu ponto de partida e a sua ocasião: é preciso perguntar novamente pelo sentido do Ser, e a elaboração concreta dessa questão é o propósito da obra de Heidegger. Para tanto, é imprescindível despertar de novo a compreensão prévia para o sentido da pergunta - isto é: que sentido tem a pergunta pelo sentido do Ser?
Oswaldo Giacoia Jr. - Heidegger Urgente: Introdução a um novo pensar
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