Saturday, June 08, 2013


Ser-no-mundo e ser-com

Intramundano, o ser-o-aí existe desde sempre em comércio com os outros entes, em um relacionamento que pode ser:

a. Objetivo: é o plano da relação entre sujeito e objeto, no qual o mundo é disposto ou coloca-se diante de nós como universo re-presentado. Nesse sentido, o mundo é a totalidade dos objetos presentes (Vorhanden) para um sujeito do conhecimento. Representar é reapresentar: dispor objetivamente os entes para a apreensão teórica, de modo a extrair deles um saber científico, que enseja controle e disponibilização para operações técnicas.

b. Trato ou lida (Umgang): diferentemente dos objetos do conhecimento, lidamos com coisas que nos defrontam - como os utensílios - e suscitam perguntas como: "Para quê?", "Com que finalidade?".

Seu modo de existir não é o da presentidade (Vorhandenheit). Essas coisas se dão a nós no vetor do sentido da Zuhandenheit - termo que designa aquilo que está à mão, não simplesmente como objeto presente, mas como entidade que tem a condição de utensílio. No modo de desvelamento próprio da condição ôntica de Zuhandenheit, os entes vêm ao nosso encontro como entes geradores, coisas das quais nos servimos para criar outras coisas e, por causa disso, estas são denominadas Zeug: trata-se do dispor de um instrumento útil para fazer coisas, ferramenta com que fazemos, produzimos, geramos outras coisas. Portanto, nessa acepção, o termo Zeug significa tanto "coisa" como "gerar" (nesse caso, na forma verbal: zeugen). Assim, em Werkzeug (ferramenta) temos uma coisa, que, ao lidar com ela, geramos ou produzimos outras coisas. Já no caso de Spielzeug, defrontamo-nos com uma coisa com a qual brincamos.

Não se trata aqui de relação teórica, objetivante, mas de lida pragmática. Produzir é, etimologicamente, producere: conduzir diante de, trazer à frente - como téchne (técnica), em sua significação originária, está ligada à poiésis (produzir, criar), pois é também uma modalidade de desocultar, trazer à luz, revelar. Nosso comportamento com os utensílios é trato, não cognição. Eles exigem um saber próprio do lidar, são de trato relativamente mais fácil ou mais difícil. Tocar um violão, por exemplo, não exige um conhecimento do processo de construção do instrumento, nem de sua história, nem necessariamente de teoria musical; brincamos com brinquedos, ou voamos em aeronaves, sem manter com essas coisas nenhum relacionamento cognitivo aprofundado.

c. Relação ética: engajamo-nos com certos entes em um relacionamento que não é nem o de cognição nem o de lida prático-instrumental, mas uma relação pessoal, ética. Essa relação não se limita à que estabelecemos com os outros, mas está também ontologicamente vinculada à relação que criamos conosco, a um tipo originário de cuidado de si, de préstimo e cura das possibilidades sempre abertas que constituem nossa existência. Existir significa, em sentido radical, cuidar de poder ser no mundo, que é também (e não menos essencialmente) ser-com-os-outros.

Ser-no-mundo é, antes de tudo, abertura (Erschlossenheit), estar aberto para a mundanidade (Weltlichkeit), nos planos da relação cognitiva, tecnocientífica, é lidar com as coisas, manter um relacionamento com elas enquanto utensílios (Zuhandenheit) ou, enfim, relacionar-se com os outros como pessoas, em um modo de ser-com, de compartilhar (mit-sein).

Cabe à fenomenologia a tarefa de descrever a mundanidade como elemento constitutivo do ser-lançado no mundo. O poder-ser é indefinido, mas não infinito. Temporal, ele implica finitude e a possibilidade da impossibilidade, de não ser. Por isso, o ser-o-aí é pré-ocupação, cuidado com os entes intramundanos, cura do mundo. Não há o ser-o-aí sem mundo, nem mundo sem ser-o-aí. É nesse sentido que a fenomenologia existencial de Ser e tempo é também uma ética originária do cuidado de si e do cuidado do mundo. É nessa condição que se ancoram as duas possibilidades de ser que mais profundamente penetram na raiz da facticidade: o existir autêntico, como ser si-próprio (das Selbst), e a existência inautêntica: o impessoal (das Man, "a gente").

Oswaldo Giacoia Jr. - Heidegger Urgente: Introdução a um novo pensar

No comments: