Ouro
De vez em quando vinham nos chamar para os interrogatórios. Quando era Fossa quem interrogava, as coisas iam bastante bem: Fossa era um exemplar humano que eu nunca havia encontrado, um fascista de manual, estúpido e corajoso, que o ofício das armas (tinha combatido na África e na Espanha, e se gabava disso com a gente) havia cercado de sólida ignorância e obtusidade, mas não corrompido nem tornado desumano. Havia acreditado e obedecido durante a vida inteira, e estava candidamente convencido de que os culpados pela catástrofe eram apenas dois, o rei e Galeazzo Ciano, que justo naqueles dias tinha sido fuzilado em Verona; Badoglio não: ele também era um soldado, tinha jurado ao rei e devia ser fiel ao juramento. Se não fosse pelo rei e por Ciano, que haviam sabotado a guerra fascista desde o início, tudo teria corrido bem e a Itália teria vencido. Considerava me um avoado, estragado pelas más companhias; no âmago de sua alma classista, estava convencido de que um diplomado não podia realmente ser um "subversivo". Ele me interrogava por tédio, para me doutrinar e para posar de importante, sem nenhuma intenção inquisitorial séria: era um soldado, não um policial. Nunca me fez perguntas embaraçosas, nem me perguntou se eu era judeu.
A Tabela Periódica. Ouro. © 1975, Primo Levi. Tradução: Maurício Santa Dias. Companhia das Letras, 2025.
![]() |
| Turim, julho de 1943 |




No comments:
Post a Comment