Sábado
Um moço de quase dois metros, magro e forte, de dreads bem abaixo do ombro chamou minha atenção quando descia o barranco para oferendar mais próximo à água.
Cheguei à beira do dique para olhar mais de perto aquela figura de calça jeans e camiseta branca, destoante dos atletas de fim de semana e das devotas de Kissimbi, mais comuns à beira do lago.
Quando vi as flores amarelas nas mãos dele, abrigadas junto ao peito, falei alto: Ela vai gostar.
O homem virou-se de lado para me ver. Não sei se cantava ou falava, mas mexia os lábios e não se desconcentrou. Balançou a cabeça afirmativo e ergueu a flor em minha direção, como uma taça. Depois tocou a testa, fechou os olhos e jogou a flor na água, num movimento de desapego. Continuei meu passo compassado e quando estava na metade do dique surgiu o moço na direção contrária à minha, agora de óculos escuros, num passo tranquilo, mas sem arrastar o corpo.
Sorri e diminuí a velocidade. Ele também desacelerou, mas não sorriu. Quando paramos frente a frente ele sentenciou: é meu filho! Ele nasceu com saúde. Que bom, me alegro, retruquei. E como está a mãe?
O moço apertou os olhos com o polegar e o indicador por baixo dos óculos, escorregou-os pelo nariz e parou na boca trêmula. Ela levou.
Um Exu em Nova York. © 2018 Cidinha Silva. Pallas Editora e Distribuidora Ltda.



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