Wednesday, March 11, 2026

(...) “o paciente fronteiriço (borderline), psicótico ou psicopático têm um defeito fundamental na diferenciação do bom e do mau, sendo incapazes de fazer a discriminação ou fazendo-a de modo rígido ligado a critérios descritivos que escarnecem do próprio propósito da operação, ou os mantêm em uma relação completamente invertida, um em relação ao outro”.

A “onipresença deste defeito na parte mais psicótica da personalidade” (...) tem “conjunção com um outro defeito muito sério: o fracasso na apreensão do belo através da resposta emocional à sua percepção”. O material advindo da experiência clínica sugere que “enquanto os pacientes mais saudáveis reconheciam indubitavelmente a beleza como sendo uma donnée através de uma reação emocional poderosa, os mais doentes ficavam muito dependentes de pistas sociais, qualidades formais e critérios intelectuais”, não mostrando “confiança em seus julgamentos nem tampouco sinceridade em seu interesse”.

Sensíveis apenas aos aspectos quantitativos da vida mental, tais pacientes, ao contrário dos mais saudáveis, permanecem impossibilitados de apreender uma “qualidade da dor (...) ligada à percepção do belo, de seu existir e cessar de existir e de sua renovação”. Incapacitados “para conseguir manter vinculadas dentro de si a alegria e a dor da verdade a respeito das coisas vivas e não-vivas, da fragilidade das forças da vida quando comparadas ao maligno, que parece sempre estar sendo favorecido pelo grande fator da aleatoriedade. Em outras palavras, (...) mudar a percepção do belo do objeto bom idealizado à luta propriamente dita, incluindo então o maligno e o aleatório juntamente com aquilo que é bom, como parte do drama, e portanto parte de seu amor pelo mundo”.

(...) “a apreensão do belo contém, em sua própria natureza, a apreensão da possibilidade de sua destruição. Nos termos de Bion, o objeto presente é visto como contendo a sombra do objeto-presente-como-um-perseguidor”.

(...) O desenvolvimento que ocorre durante um ciclo de vida tenta restaurar aquilo que havia sido despedaçado, por não ter sido sustentado pelo frágil ego infantil, de tal modo que a beleza do objeto possa ser olhada de frente, sem que ocorra, como temia Sócrates, “dano à alma”.

Donald Meltzer - A Apreensão do Belo.