Zinco (II)
Caselli me entregou o zinco, voltei à bancada e me concentrei no trabalho: me sentia curioso, "embaraçado" e vagamente chateado, como quando você tem treze anos e precisa ir ao Templo recitar em hebraico a oração do bar mitzvah diante do rabino; chegara o momento esperado e um tanto temido. Tinha soado a hora do encontro com a Matéria, a grande antagonista do Espírito: a 'Hyle', que curiosamente se encontra embalsamada nas desinências dos radicais alquílicos: metil, butil etc.
A outra matéria-prima, o parceiro do zinco, ou seja, o ácido sulfúrico, não precisava ser entregue por Caselli: havia em abundância em todos os cantos. Concentrado, é claro: era preciso diluí-lo em água; mas, atenção, está escrito em todos os tratados que se deve despejar o ácido na água, e não o contrário, senão aquele óleo de aspecto tão inócuo pode sucumbir a cóleras furiosas, coisa que até os alunos do Ensino Médio sabem. Só depois se coloca o zinco no ácido diluído.
Na apostila estava escrito um detalhe que me escapara a uma primeira leitura, qual seja, que o tão terno e delicado zinco, tão solícito diante dos ácidos, que o devoram numa só bocada, comporta-se de modo bastante diverso quando se encontra em estado muito puro: nesse caso, ele resiste obstinadamente ao ataque. Disso se poderiam extrair duas consequências filosóficas contrastantes entre si: o elogio da pureza, que protege do mal como uma couraça, e o elogio da impureza, que dá acesso às transformações, ou seja, à vida. Descartei a primeira, intragavelmente moralista, e me detive na consideração da segunda, que me era mais congenial. Para que a roda gire, para que a vida viva, há de haver impurezas, e as impurezas das impurezas — inclusive nas terras, como se sabe, para que sejam férteis. É preciso o dissenso, o diverso, o grão de sal e de mostarda: o fascismo não os aceita, os proíbe, e por isso você não é um fascista; querem todos iguais, e você não é igual. Mas tampouco a virtude imaculada existe, ou se existe, é detestável. Então pegue a solução de sulfato de cobre que está na prateleira dos reagentes, acrescente uma gota dela a seu ácido sulfúrico e note que a reação tem início: o zinco desperta, se recobre de uma branca pelagem de bolhinhas de hidrogênio, e aí está, a mágica aconteceu, você pode abandoná-la a seu destino e dar um passeio pelo laboratório para ver o que há de novo e o que os outros estão fazendo.
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A Tabela Periódica. Zinco. © 1975, Primo Levi. Tradução: Maurício Santa Dias. Companhia das Letras, 2025.
Imagem: Primo Levi. Getty Images.




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