Tuesday, December 30, 2025

Zinco

Caselli adorava P. com um amor acre e controverso. Parece que foi fiel a ele por quarenta anos; era sua sombra, sua encarnação terrena e, como todos os que exerciam funções vicárias, era um exemplar humano interessante: quero dizer, como aqueles que representam a Autoridade sem propriamente possuí-la, como por exemplo os sacristãos, os guias de museu, os bedéis, os enfermeiros, os "jovens" dos advogados e tabeliões, os representantes de comércio. Estes, em maior ou menor medida, tendem a transfundir a substância humana de seus Superiores à sua própria figura, como ocorre com os cristais pseudomorfos: às vezes sofrem com isso, frequentemente sentem prazer, e possuem dois esquemas de comportamento distintos, a depender se agem por conta própria ou "no exercício de suas funções". Ocorre muitas vezes que a personalidade do Superior os invada tão profundamente, a ponto de perturbar seus contatos humanos corriqueiros, e que por isso permaneçam celibatários: de fato, o celibato é prescrito e aceito na condição monástica, que implica justamente a proximidade e a subserviência à maior das autoridades. Caselli era um homem modesto, taciturno, em cujos olhares tristes mas orgulhosos se podia ler:

— Ele é um grande cientista, e como seu "famulus" também sou um pouco grande;

— eu, apesar de humilde, sei coisas que ele não sabe;

— o conheço melhor que ele a si mesmo, prevejo seus atos;

— tenho poder sobre ele, o defendo e o protejo;

— posso falar mal dele, porque o amo: vocês não têm esse direito;

— seus princípios são justos, mas ele os aplica com displicência, e "antigamente não era assim". Se não fosse por mim...

... e de fato Caselli geria o Instituto com parcimônia e misoneísmo até superiores aos do próprio P.

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A Tabela Periódica. Zinco. © 1975, Primo Levi. Tradução: Maurício Santa Dias. Companhia das Letras, 2025.

Imagem: Primo Levi em 1980. Marcello Mencarini/Leemage

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