Wednesday, June 15, 2022

Bruno e Dom - cronologia de um crime

Bruno Pereira e Dom Phillips foram esquartejados e incendiados

Por Amazônia Real

Publicado em: 15/06/2022 às 18:49

Por Elaíze Farias e Kátia Brasil, da Amazônia Real

Manaus (AM) e Rio de Janeiro (RJ) – O indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram mortos à queima-roupa e seus corpos, esquartejados, incendiados e corpos enterrados em uma área nas proximidades da comunidade São Rafael, quase no limite da Terra Indígena Vale do Javari, em Atalaia do Norte, no Amazonas. Duas fontes, uma da Polícia Federal e um indígena, confirmaram que agentes passaram a tarde no local onde estariam as vítimas do cruéis assassinatos acompanhados de Amarildo da Costa de Oliveira, o “Pelado”. O pescador e seu irmão Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como “Dos Santos”, teriam confessado o crime nesta quarta-feira (15), mas indicaram um terceiro envolvido no crime.

O crime ocorreu mesmo na manhã do domingo de 5 de junho, logo após Bruno e Dom terem passado pela comunidade São Rafael. Pela confissão, “Dos Santos” e “Pelado” esquartejaram e carbonizaram os corpos das vítimas e jogaram os restos mortais no Itacoaí. Uma terceira pessoa é que teria atirado contra a dupla, segundo confessaram os irmãos. O brutal assassinato foi em represália às denúncias de que os ribeirinhos estavam invadindo a Terra Indigena (TI) Vale do Javari, no Amazonas, para pescar ilegalmente pirarucu e tracajás (quelôneos da Amazônia).

O ministro da Justiça Anderson Torres, na sua conta no Twitter, afirmou no início da noite desta quarta-feira, que tinha sido informado pela PF que “remanescentes humanos foram encontrados no local, onde estavam sendo feitas as escavações” e que eles seriam enviados à perícia. A PF daria uma coletiva às 19h30 (hora de Manaus) para falar do caso.

De acordo com a Polícia Federal, os dois foram mortos em uma área entre as comunidades São Rafael e Cachoeira, já na direção de Atalaia do Norte. Eles teriam sido encurralados em uma emboscada. Esta hipótese, publicada em primeira mão pela Amazônia Real, foi revelada em detalhes por uma fonte indígena que conhece as características da bacia do rio Javari e seus afluentes. Naquele dia, Bruno Pereira tinha intenção de levar para a PF provas de crimes praticados por pescadores ilegais, possivelmente financiados pelo narcotráfico, dentro da TI Vale do Javari, que vem sendo constantemente invadida.

Morador da comunidade São Gabriel, Amarildo da Costa de Oliveira foi preso no dia 7 de junho por posse ilegal de armas de uso restrito e drogas. Testemunhas ouvidas pela PF disseram que ele foi visto em uma embarcação navegando próximo da lancha onde viajavam Bruno e Dom. No dia 4 de junho, indígenas da Equipe de Vigilância da Univaja (EVU) presenciaram ameaças feitas por um grupo de pescadores. Considerado suspeito, Oseney foi preso na terça-feira (14) e interrogado pela PF em Atalaia do Norte.

A primeira fonte indígena ouvida pela Amazônia Real já temia que Dom e Bruno tivessem sido mortos, chegando a indicar que suspeitava da “pior das hipóteses”. Essa suspeita acabou se espraiando por mais pessoas envolvidas nas buscas dos desaparecidos. Desde a semana passada, começaram a circular em Atalaia do Norte (AM) rumores sobre o crime praticado pelos irmãos “Pelado” e “Dos Santos”. Por se tratar de uma área de rios sinuosos, que se ramificam em igapós e igarapés, o temor de que tivesse havido uma ocultação de cadáver difícil de ser localizada só crescia após cada dia de buscas.

Os indígenas da EVU e de outras etnias conhecem bem a região onde aconteceu a emboscada, que fica fora dos limites da TI Vale do Javari, e desde os primeiros momentos se prontificaram a auxiliar na busca de alguma prova junto das autoridades policiais. Foi com a ajuda deles que foram encontrados pertences no domingo (12), uma semana após o desaparecimento de Dom e Bruno. Entre o material recolhido, submerso no rio, estavam roupas da dupla e a carteira de saúde de Bruno.

“Não foram só eles, não”

Indígenas ouvidos pela Amazônia Real já imaginavam que o jornalista britânico, colaborador assíduo do jornal The Guardian, e o indigenista brasileiro, licenciado da Fundação Nacional do Índio (Funai), estavam mortos, mas relataram estar perplexos pela forma como ocorreu o sumiço dos corpos.

A identificação do local aconteceu dois dias após a Embaixada brasileira na Inglaterra ter informado à família de Dom Phillips que os corpos já haviam sido localizados. Na sexta-feira (10), a PF informou que material orgânico “aparentemente humano” tinha sido levado para análise da perícia.

A prisão e a confissão dos dois não são suficientes para as lideranças indígenas ouvidas pela Amazônia Real. Manoel Chorimpa, do povo Marubo, disse à reportagem que há pelo menos mais uma ou duas pessoas envolvidas. “Não foram só eles, não”, afirmou, categórico. Paulo Marubo, da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), cobrou continuidade das forças policiais na investigação para se chegar a outros criminosos. “Estamos pedindo para a Polícia Federal pegar outros envolvidos. Não foram só o Pelado e o Oseney”, afirmou.

Na investigação da PF, testemunhas afirmaram que os dois, “Pelado” e “Dos Santos”, teriam envolvimento com o narcotráfico que financia a pesca ilegal de pirarucu, um peixe ameaçado de extinção e cuja pesca no Amazonas só é permitida em áreas de manejo, unidades de conservaçao ou terras indígenas.

De acordo com Manoel Chorimpa, há três categorias de pescadores na região do Vale do Javari. Existe o pescador simples, que pesca para sobreviver, e é geralmente de Atalaia do Norte. Há ainda o pescador regularizado, credenciado e que atua mais nos rios Javari e Curuçá. E há aqueles financiados pelo narcotráfico que priorizam a pesca de pirarucu e tracajá. “Estes são financiados por pessoas de Benjamin (Constant) e Tabatinga. E do lado do Peru, tem os ‘israelitas’ (chamados localmente de ‘cabeludos’), que são agricultores envolvidos com o narcotráfico, mas que possuem comércio em Atalaia. (Na comunidade de) São Rafael, são pessoas de Benjamin também. Eles possuem motores potentes, fazem muita festa”, afirmou Chorimpa.

Os minutos finais

Nos minutos finais antes de serem mortos, Bruno e Dom seguiram sozinhos em um barco de motor 40 HP até a comunidade São Rafael, no rio Itacoaí, para se encontrar com o ribeirinho Manoel Vitor Sabino da Costa, conhecido como “Churrasco’. Ele é tio de “Pelado” e chegou a ser detido pela Polícia na terça-feira (07), sendo liberado algumas horas depois. Segundo Eliésio Marubo, advogado da Univaja, a reunião já estava marcada. Em entrevista à Amazônia Real, “Churrasco” negou que houvesse combinado reunião com Bruno Pereira.

Em São Rafael, Bruno tomou uma xícara de “Nescau” oferecida pela esposa de Churrasco, Alzenira Gomes, antes de retomar a viagem. Ele e Dom Phillips retornariam à sede de Atalaia do Norte com o objetivo de divulgar denúncias de invasões e pesca e caça ilegal coletadas por Bruno durante trabalho de vigilância e fiscalização da EVU, uma rede de monitoramento que começou a atuar em 2021 e recebia capacitação do indigenista. Desde que saiu da Funai, Bruno Pereira se prontificou a ajudar a Univaja a treinar os indígenas para combaterem os crimes ambientais na região.

Segundo apurou a Amazônia Real, Bruno havia marcado com “Churrasco” às 6 horas do dia 5 de junho. Com a informação prévia da visita, os criminosos teriam se armado e preparado para atacar Bruno Pereira em uma área estreita de um dos furo (atalhos) à margem do rio Itacoaí. Acuado e encurralado, Bruno não conseguiu fugir dos atacantes e levou um tiro. Dom teria sido morto por ter sido testemunha.

Desde o desaparecimento dos dois, a Univaja e centenas de indígenas da TI Vale do Javari se mobilizaram para as buscas de Bruno e Dom. Com o passar dos dias, as esperanças de encontrá-los vivos ia diminuindo. “Queremos encontrar pelo menos os corpos”, relatou uma liderança à Amazônia Real.

Depois da demora do Estado braasileiro para agir, criticada até pela ONU, as forças de segurança e policiais chegaram a Atalaia do Norte, um município com estrutura precária, com poucas ruas asfaltadas, acesso à internet e telefonia deficiente, e uma população de pouco mais de 20 mil pessoas. Na prática, o protagonismo das buscas se concentrou entre os indígenas, profundos conhecedores da floresta e dos rios da região do rio Javari e afluentes.

As mortes de Bruno e Dom causaram comoção sem precedentes entre os indígenas do Vale do Javari, com repercussões no resto do Brasil e do mundo. No domingo, várias lideranças indígenas, entre caciques históricos, como Eduardo Dyamin Kanamari, da aldeia Massapê, no rio Itacoaí, saíram de suas aldeias até a sede de Atalaia do Norte, onde fizeram um protesto e homenagearam o jornalista e o indigenista. Na segunda-feira (13), integraram-se às equipes de busca que já estavam atuando desde a notícia do sumiço.

A liderança Manoel Chorimpa lamentou entristecido a morte do amigo. “O Bruno se sacrificou servindo de escudo dos povos indígenas do Vale do Javari, sobretudo na defesa dos povos isolados e dos recursos ambientais”, disse à Amazônia Real.

Os vigilantes indígenas

Bruno Pereira era servidor de carreira da Funai e começou a atuar na TI Vale do Javari há mais de 10 anos. Chegou a ser chefe da Coordenação Regional da Funai em Atalaia do Norte, onde atuou em diferentes. Conhecido por ser enérgico e rigoroso, ele também teve atritos com indígenas, culminando em um conflito com os Matís, em 2015, que pediram sua saída. Posteriormente, Bruno e os Matís se reconciliaram e passaram a atuar juntos na proteção do território. Chocados com o desaparecimento do amigo, os Matís foram para Atalaia do Norte para apoiar nas buscas de Bruno e Dom e protestar contra o assassinato.

Desde que se licenciou da Funai, em 2019, Bruno tprnou-se assessor da Univaja, onde assumiu a coordenação da EVU, com recursos de financiamentos internacionais. Thoda Kanamari, membro da Univaja, disse que Bruno Pereira se juntou aos indígenas no monitoramento desde que aumentou a preocupação com o avanço dos invasores para o interior da terra indígena.

“Os invasores querem tomar a terra indígena. Nós, da Univaja, estávamos sendo cobrados pelas lideranças do Itacoaí e do Ituí. Os invasores se aproximaram cada vez mais das aldeias. Então o Bruno se juntou a nós”, diz Thoda Kanamari à Amazônia Real.

Conforme a liderança Kanamari, o projeto da EVU começou a ser discutido em 2019, mas começou a ser implementado somente em 2022. Thoda afirma que os indígenas vão continuar protegendo o território como aprenderam com o indigenista. “A gente não vai desistir. Se desistir, pode piorar. Vamos continuar fazendo o nosso monitoramento onde o Estado não fiscaliza mais, nem protege nós indígenas do Vale do Javari. A Funai está muito enfraquecida. Temos direito de cuidar de nosso território”, diz.

*

Os 10 dias trágicos - Linha do tempo mostra como foram as buscas ao jornalista e ao indigenista que amavam a Amazônia e seus povos

3 de junho

O jornalista britânico Dom Phillips e o indigenista brasileiro Bruno Pereira partiram da cidade de Atalaia do Norte para uma viagem à região do Vale do Javari, fora do território indígena, no extremo oeste do Amazonas, na fronteira com o Peru. Bruno, que pilotava a embarcação, transportava Dom para uma entrevista com integrantes da EVU (Equipe de Vigilância) da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), que estava no Lago Jaburu.

Com uma lancha com motor de 40 HP, pertencente à Univaja, eles entraram em furos (cursos de rios estreitos) da bacia do rio Itacoaí. Dom viajou a Atalaia do Norte para pesquisar sobre a situação do território indígena para a produção de um livro. Bruno Pereira, servidor licenciado da Funai, é consultor de projetos da Univaja e atua na linha de frente do combate aos crimes ambientais no território, em que há povos de recente contato e isolados. A tríplice fronteira, com a Colômbia e o Peru, é rota do narcotráfico.

5 de junho

Bruno e Dom deixam a base da EVU por volta das 6 horas de domingo. O indigenista disse que tinha uma reunião com o líder da comunidade ribeirinha São Rafael, Manoel Vitor Sabino da Costa, o “Churrasco”. O trajeto é de 15 minutos de barco. Na casa dele, os dois encontraram apenas a esposa do pescador.

6 de junho

A Univaja publica nota sobre o desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips e afirma que o último avistamento sobre a dupla foi nas comunidades ribeirinhas São Gabriel e Cachoeira. Os indígenas iniciam as buscas ainda no domingo e fazem várias vezes o percurso de Bruno e Dom. Não encontraram nada. A lancha tinha sete galões de combustível vazios. No mesmo dia, “Churrasco” e Jânio são detidos pela Polícia Civil e liberados após serem ouvidos.

As autoridades brasileiras demoram para agir nas buscas ao jornalista e ao indigenista. Apenas 24 horas depois do desaparecimento é que o governo envia forças policiais e de segurança para atuarem no caso, após pressão da embaixada britânica e da sociedade, diante da grande repercussão sobre o desaparecimento nas redes sociais. Marinha e Polícia Federal começam a investigar sem o apoio dos indígenas, exímios conhecedores da região.

7 de junho

Em seguida, a polícia prende Amarildo da Costa de Oliveira, o ‘Pelado’, por porte de munição de uso restrito e drogas. Após a audiência de custódia, a Justiça decreta a prisão temporária dele. ‘Pelado’ passa a ser a pessoa chave para desvendar os desaparecimentos. Uma perícia identifica sangue em sua lancha, apreendida. Informações de indígenas apontam que o narcotráfico está envolvido numa rede de financiamento de pescadores de grandes carregamentos de peixes e caça de animais silvestres, além de madeira da Terra Indígena Vale do Javari.

Fonte ouvida com exclusividade pela Amazônia Real afirma que o indigenista brasileiro e o jornalista britânico foram vítimas de emboscada após saírem da comunidade São Rafael. Eles estariam com documentação, em imagens, de locais de invasões da TI Vale do Javari, o que teria contrariado criminosos ligados à pesca ilegal e ao tráfico de drogas.

O presidente Jair Bolsonaro (PL) não descarta uma possível execução da dupla e classifica a viagem de Dom Phillips e Bruno Pereira como uma “aventura”. “Realmente, duas pessoas apenas num barco, numa região daquela completamente selvagem, é uma aventura que não é recomendada que se faça. Tudo pode acontecer. Pode ser acidente, pode ser que tenham sido executados”, disse o presidente em entrevista ao SBT.

8 de junho

A reportagem ouve testemunhas que dizem que “Pelado” é a peça chave para a elucidação do sumiço de Dom e Bruno. A testemunha conta que indígenas da EVU, entre eles pessoas dos povos Kanamari, Matís e Maru, avistaram uma lancha de 60 HP guiada pelo suspeito. Ele estava acompanhado de dois homens. Navegavam em direção à Terra Indígena Vale do Javari.

Um indígena diz à Amazônia Real que “Pelado” e os dois homens intimidaram Bruno e apontaram armas quando dos dois estavam em uma missão para interceptar “Pelado”, junto com uma equipe da EVU. Nove indígenas estavam em uma embarcação chamada canoão, Bruno guiando a lancha, Dom como um dos passageiros. Dom filmou toda a ação. Neste mesmo dia, Bruno segue viagem até a Base da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari, da Funai, no rio Ituí, para denunciar as ameaças de “Pelado”. Lá há militares da Força Nacional de Segurança, que apoiam as ações da Funai. A fonte fala ainda em nomes como “Churrasco”, “Caboclo”, Jânio e “Nei”, todos apontados como tendo alguma ligação com o caso.

10 de junho

As equipes de busca localizam no rio, próximo ao porto de Atalaia do Norte, material orgânico aparentemente humano. O material é encaminhado para análise pericial pelo Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal, que também realizará perícia nas amostras de sangue encontradas na embarcação de “Pelado”. Há coleta de materiais genéticos de referência do jornalista britânico Dom Phillips em Salvador (BA) e do indigenista Bruno Pereira em Recife (PE). Os materiais coletados serão utilizados na análise comparativa com o sangue encontrado na embarcação.

12 de junho

Uma equipe de reportagem da Amazônia Real visita a comunidade ribeirinha de São Rafael e entrevista Alzenira Gomes. Ela diz que ofereceu um “Nescau” para Bruno e Dom. O pescador Jânio Freitas de Souza confirma que Bruno iria conversar com “Churrasco” sobre o manejo do pirarucu. Jânio revela que foi a última pessoa a falar com Bruno. Ele diz que o indigenista e o jornalista estiveram na comunidade por volta das 7h20 de domingo. Os dois então partem para Atalaia do Norte, um percurso de 40 minutos.

“Churrasco”, que é tio de “Pelado”, afirma que não sabia o motivo da visita de Bruno. “Pra estar esse tempo todo sumido desse jeito, ou está morto ou está amarrado por aí por dentro do mato, só pode”, afirma “Churrasco” à Amazônia Real, quando perguntado sobre o que poderia ter acontecido com a dupla desaparecida.

A Operação Javari, que conta com as participações das Forças Armadas, Polícia Militar e Polícia Civil do Amazonas, faz busca fluvial e reconhecimento aéreo numa área a 25 quilômetros de Atalaia do Norte. Na região são encontrados objetos pessoais pertencentes aos desaparecidos, sendo de Bruno: um cartão de saúde, uma calça preta, um par de botas. De Dom Phillips são: um par de botas, uma mochila e um 1 notebook.

13 de junho

A família de Dom Phillips recebe uma ligação da Embaixada brasileira no Reino Unido informando que dois corpos haviam sido encontrados, mas ainda precisavam ser periciados. Alessandra Sampaio, esposa de Dom, repassa a informação para o jornalista da TV Globo André Trigueiro, que a divulga nas redes sociais. Em questão de minutos, a Polícia Federal nega os fatos, causando ainda mais angústia para as famílias. No dia seguinte, a Embaixada pede desculpas por informar erroneamente ao cunhado e à irmã de Phillips no Reino Unido.

14 de junho

A Polícia Federal cumpre dois mandados de busca e apreensão judicial, tendo apreendido cartuchos de arma de fogo e um remo, os quais serão objeto de análise. E prende temporariamente Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como “Dos Santos”, 41 anos, por suspeita de participação no caso juntamente com seu irmão, Amarildo da Costa de Oliveira, o “Pelado”.

15 de junho

Os dois irmãos confessam os assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips, segundo informações divulgadas por uma fonte da Polícia Federal. Eles teriam matado, esquartejado e enterrado os corpos do indigenista e do jornalista.

Tuesday, June 14, 2022

No Clarão das Águas, no Deserto Negro

Bruno Pereira e Dom Phillips by Di Vasca


por Maurício Rezende Habert - reproduzido do GGN

14/06/2022

Foi difícil ouvir hoje a música Matita Perê, de Tom Jobim e Paulo Cesar Pinheiro, e não conectá-la com o recente caso do desparecimento do jornalista britânico Dom Philips e o indigenista Bruno Pereira na floresta amazônica.

A música, que dá nome ao ser folclórico que se transforma em um pássaro agourento, relata a história de um certo 'João', que acorda dentro de um pesadelo, no qual ele é emboscado por um certo 'Você'.

Desde o início deste épico musical de Jobim, se percebe pelo tom circular de um violão melancólico que o destino trágico do personagem em fuga já está traçado, corresse ele para onde fosse. O grito do pássaro, emulado pela orquestra, dá início a emboscada.

No jardim das rosas
De sonho e medo
Pelos canteiros de espinhos e flores
Lá, quero ver você
Olerê, Olará, você me pegar

Madrugada fria de estranho sonho
Acordou João, cachorro latia
João abriu a porta
O sonho existia


Dom e Bruno sempre souberam que suas ações de apoio à proteção da mata e tribos estavam marcadas por um grande risco. Ameaças do garimpo. Ameaças de madeireiros ilegais. Ameaças de pescadores invasores. Eram comuns. Curiosamente cada vez mais comuns desde 2019.

Mesmo assim, apoiados pela paixão ao que faziam continuavam com o trabalho de sonho e medo. Além do mais, podiam contar com a parceria dos índios da região do Vale do Javari – conhecedores e guardiães do verde amazônico. Seguiam firmes rio abaixo. 'Quero ver você… você me pegar'.

Manhã noiteira de força viagem
Leva em dianteira um dia de vantagem
Folha de palmeira apaga a passagem
O chão, na palma da mão, o chão, o chão

E manhã redonda de pedras altas
Cruzou fronteira de servidão
Olerê, quero ver
Olerê

Às 7h de uma manhã noiteira, Bruno e Dom mandaram sinais de partida. Origem: Comunidade de São Rafael. Destino: Atalaia do Norte. Estado do Amazonas, próximo a fronteira com Peru e Colômbia. Rota esta que não é possível de 'calcular no Google', uma vez que só é feita de canoa pelas vias do sinuoso Rio Itaquaí. Que desagua no Javari, que desagua no Amazonas.

Itaquaí. Do tupi antigo: itá (pedra), kûá (enseada) e ‘y (rio). Rio da enseada de pedra.

Lugares de um Brasil que provavelmente nós, do longínquo sul urbano, só conheceremos por satélite ou por notícias de jornal. É verdade que alguns poucos as adentraram mentalmente, como Jobim e Villa Lobos tão bem fizeram, através de suas leituras, inspirações e invencionices de brancos aspirantes a navegantes mentais de um Brasil remoto e infinito.

Alguns outros poucos brancos, tais como Bruno e Dom, ousaram romper o mundo das subjetividades imaginadoras e adentraram de fato fisicamente este universo. Estariam fugindo ou buscando algo? Doaram suas vidas dentro destas manchas, instavelmente gigantes e verdes. Cruzaram a fronteira da servidão.

Não sabemos o que se passou entre um ponto e outro da viagem. Daqui em diante, só especulação tal como os Tons, Villas e Drummonds.

Seguimos com o relato do estranho João:

E por maus caminhos de toda sorte
Buscando a vida, encontrando a morte
Pela meia rosa do quadrante Norte
João, João

Um tal de Chico chamado Antônio
Num cavalo baio que era um burro velho
Que na barra fria já cruzado o rio
Lá vinha Matias cujo o nome é Pedro
Aliás Horácio, vulgo Simão
Lá um chamado Tião
Chamado João

Provavelmente, um encontro, (in)esperado com milicianos integrantes do grupo de seus ameaçadores? Chico? Antônio? Pedro?

Ou teriam naufragado a canoa em algum choque contra as pedras arredondadamente esculpidas pelo Rio Itaquaí?

Recebendo aviso entortou caminho
De Nor-Nordeste pra Norte-Norte
Na meia vida de adiadas mortes
Um estranho chamado João

A dupla já vinha de um histórico de adiadas mortes. Bruno havia sido exonerado de sua função de coordenador na FUNAI em 2019, por talvez demonstrar muito afinco nas ações contra o garimpo. No mesmo ano, o jornalista britânico Dom, com seu sotaque inglês carregado, fora já execrado por bolsonaristas, após enfrentar o presidente em uma coletiva de imprensa, ao perguntar-lhe sobre os aumentos de casos de desmatamento na Amazônia.

Entortar caminhos para continuar a caminhada e adiar a morte. E adiar o fim do mundo… É o lema dos que vivem neste país com o objetivo de proteger o meio-ambiente e os povos originários, constantemente ameaçados por gangues ilegais e até mesmo por gangues legalizadas e empossadas em palácios.

Retomados pelo assobio premonitório do pássaro instrumental matita-perê, retomamos o início do épico-lírico:

Que João fugisse
Que João partisse
Que João sumisse do mundo
De nem Deus achar, lerê

João, nossa fusão poética de Bruno e Dom, já tinha seu sumiço marcado desde o início da emboscada, uma vez que terceiros já haviam condenado as fronteiras de vida e morte aos dois tipos que atrapalhavam seus negócios.

Chico Mendes e Dorothy Stang são somente alguns exemplos mais conhecidos, dentre os milhares de defensores da natureza – um sinônimo de refreadores do capitalismo – que morrem ano após ano pelas indústrias mineradoras, madeireiras, do agronegócio e outras mais.

Por sete caminhos de setenta sortes
Setecentas vidas e sete mil mortes
Esse um, João, João
E deu dia claro
E deu noite escura
E deu meia-noite no coração

Passa sete serras
Passa cana brava
No brejo das almas
Tudo terminava
No caminho velho onde a lama trava
Lá no todo-fim-é-bom
Se acabou João

Após mais de sete dias da meia-noite no coração, com os corpos de Dom e Bruno ainda não encontrados, é quase certo afirmar que 'se acabou João'.

Seus corpos-espectros já viraram histórias, narrativas, notícias e possivelmente virarão canções-épicas. Suas trajetórias e exemplos serão levados adiante, pois apesar de todo o risco iminente, a outra alternativa da história é impossível de ser uma aliada.

Uma esperança sempre irá ressurgir nos lábios dos combalidos que, mesmo após derrotas, continuam a sussurrar ao inimigo: 'quero ver você, você me pegar'.

O quiasmo de expressões formado pela estrofe final de Matita Perê é o destino de nossos tempos: no clarão das águas, no deserto negro, é o ambiente de contraposições, de idas e vindas, que seguiremos com força nossa navegação de busca, fuga, descoberta e redenção.

No Jardim das rosas
De sonho e medo
No clarão das águas
No deserto negro
Lá, quero ver você
Lerê, lará
Você me pegar

Dom e Bruno vivem.

*

Maurício Rezende Habert – Engenheiro de energia pela Escola Politécnica da USP, 29 anos, apaixonado por música e literatura.

O Tempo da Obviedade

JULIÁN FUKS

O tempo da obviedade: já não cabe confusão diante da nossa realidade

11/06/2022 - UOL

Peço que hoje perdoem minha obviedade: ela não é minha, é da realidade circundante. Lembro de um tempo em que ecoava por toda parte uma mesma frase, corruptela de Millôr Fernandes: quem não está confuso, está mal informado. Foi há poucos anos, era o início da nossa debacle, o caos que nos levaria a uma situação muito mais clara, à evidência do desastre. Hoje o tempo parece se reger por alguma simplicidade; nunca foi tão fácil pensar o Brasil quanto agora, nunca tão cristalina a posição necessária a tomar. Proponho uma reformulação: quem está confuso, está mal intencionado, ou prefere fechar os olhos para o óbvio.

A simplicidade não goza de grande estima no saber contemporâneo, embora encontre sempre uma infinidade de usos cotidianos. Simplificar é empobrecer, é ignorar nuances, é falsear inevitavelmente a história. Simplificar é produzir caricaturas de baixa qualidade, desenhos primários que obscurecem o objeto retratado, que o afastam de sua verdade. Para Edgar Morin, célebre defensor do pensamento complexo, o que acontece é que tentamos nos livrar da desordem própria do mundo em nome de uma inteligibilidade, e para isso aderimos a certezas falsas, a uma forma de cegueira que vem da recusa à complexidade.

E, no entanto, o Brasil atual parece corresponder à risca ao seu retrato mais básico, e nenhum rosto é mais parecido com sua caricatura do que o de Jair Bolsonaro. Não é preciso convocar a complexidade para compreendê-lo: pelo contrário, a complexidade é que faria obscurecer seu caráter vil, sua monstruosidade. Bastante incompatível com o pensamento crítico é o maniqueísmo, e ainda assim hoje, apenas nestes anos, o maniqueísmo tem se revelado a leitura mais precisa do Brasil. Ante uma realidade dessas, acerta a linguagem infantil: temos no cargo máximo do país um homem mau. Em cada detalhe ele se mostra mau: é tosco, autoritário, insensível, cruel, cerca-se de sujeitos tão violentos quanto ele próprio, e faz da própria violência seu projeto de poder.

Por que uma minoria ruidosa ainda está disposta a apoiá-lo, eis a pergunta que não encontra resposta tão simples. Nem mesmo a lógica da preservação de privilégios históricos se aplica agora. Neste grau de destruição sistemática a que tem sido submetido o país, a cada dia todos perdemos, sem exceção, até quem lucra com a degradação — a diferença é que alguns ainda não o enxergam ou não o querem admitir. Muito já se disse sobre as relações inextricáveis entre o pessoal e o político: pois bem, o exercício tão nocivo da política tem sido uma afronta pessoal a cada indivíduo desta nação, mesmo àqueles que aceitam ser afrontados, aqueles que concordam com sua própria destruição. Num país acometido por este grau de aniquilação, sordidez, desfaçatez, abandono, sempre perderemos todos.

Por isso tantas opiniões se parecem, por isso você tem a sensação de já ter lido este texto uma centena de vezes. Não é a tal perseguição a um presidente que nunca angariou nenhuma simpatia da imprensa, como ele insiste em tom choroso, tantas vezes. É apenas o quase consenso alcançado por uma miríade de mentes pensantes, mentes que prefeririam explorar profundidades, minúcias, nuances, mas que acabam por se render à indigência do presente, tão simples e tão semelhante a si mesmo. Não há muito mais a dizer: a realidade é que é feita dessa penúria triste, dessa esqualidez de sentidos.

Tão famélico está o povo brasileiro quanto o nosso pensamento. Queremos algo de mais vivo e mais vasto a discutir, queremos de volta a ambiguidade, a multiplicidade de visões razoáveis, queremos de volta a possibilidade da incerteza, da sutileza. Anseio por um dia mais confuso do que este: quando ele enfim chegar, estaremos imersos numa realidade menos miserável. Anseio pelo dia em que retornaremos à complexidade, o dia em que não deverei pedir perdão e logo escrever uma obviedade, anseio muito, como anseio.

Friday, October 09, 2020

Barra 69

Quando penso no número de pessoas que morreram em prisões brasileiras a partir de 68 (e que foi pequeno se comparado ao número de vítimas argentinas ou chilenas da década seguinte); quando penso os que sofreram tortura física, ou nos que foram expulsos do país em 64 e só puderam voltar na anistia em 79, concluo que minha prisão de dois meses foi um episódio que nem sequer mereceria referência. Muitos dos que sofreram maiores maus-tratos - ou que foram presos mais vezes e por mais tempo - passam rápido pelo assunto, muitas vezes em tom de descaso. O próprio Gil não tem dos dias de cela e xadrez uma lembrança tão amarga ou tão recorrente quanto a minha. Tendo percebido cedo que algo assim poderia acontecer, e em tudo mais adulto do que eu, em vez de simplesmente se sentir aniquilado, pôde ao menos tentar transformar a experiência em algo produtivo para sua formação. Na cadeia ele achou oportunidade para exercitar uma espécie de ascetismo, deixou de comer carne, adivinhou sabedorias orientais que o levaram a estudos posteriores e à alimentação macrobiótica. Esta última, literalmente, mudou sua vida: seu corpo, sua pele, seu temperamento mudaram para melhor e para sempre. Enquanto eu apenas descobria que o sofrimento não serve para absolutamente nada. As muitas páginas que aqui dediquei ao episódio da prisão se explicam por ser este um livro sobre a experiência tropicalista vista de um ângulo muito pessoal meu. E se justificam por revelar o quanto eu era psicológica e, sobretudo, politicamente imaturo.

Caetano Veloso. Parte IV. Barra 69. Verdade Tropical, 1997.

A Tortura Política

A tortura política em nenhum caso é mero procedimento técnico, crispação de urgência numa corrida contra o tempo, destinada à coleta fulminante de informações.

 Expressão tenebrosa da patologia de todo um sistema social e político, ela visa à destruição do sujeito humano, na essência de sua carnalidade mais concreta. 

A tortura reivindica, em sua empreitada nefanda, uma rendição do sujeito na qual estejam empenhados nervos, carne, sangue, ossos e tendões: cabeça, tronco e membros.

Para tanto, a tortura busca, à custa do sofrimento corporal insuportável, introduzir uma cunha que leve à cisão entre o corpo e a mente. E, mais do que isto: ela procura, a todo preço, semear a discórdia e a guerra entre o corpo e a mente. Através da tortura, o corpo se torna nosso inimigo, e nos persegue. É este o modelo básico no qual se apoia a ação de qualquer torturador. 

O corpo é a nossa casa, pela qual nos plantamos no mundo. Ao mesmo tempo que a habitamos, suas vigas, paredes, tubulações e aposentos fazem parte de nós, e nos constituem. Sem um mínimo de solidariedade do corpo próprio para conosco, ficamos não apenas desabrigados, expostos a um duro e frio relento, mas literalmente sem chão, sem apoio elementar, entregues às ansiedades inconscientes mais primitivas.

A tortura destrói a totalidade constituída por corpo e mente, ao mesmo tempo que joga o corpo contra nós, sob forma de um adversário do qual não podemos fugir, a não ser pela morte. A tortura transforma nosso corpo - aquilo que temos de mais íntimo - em nosso torturador, aliado aos miseráveis que nos torturam. 

Esta é a monstruosa subversão pretendida pela tortura. Ela nos racha ao meio e, no centro desta esquizofrenia, produzida em dor e sangue, crava a sua bandeira de desintegração, terror e discórdia.

O corpo, na tortura, nos acua, para que nos neguemos enquanto sujeitos humanos, fiéis aos valores que compõem nosso sistema de crenças. Ele se volta contra nós, na medida em que exige de nós uma capitulação que, uma vez consumada, nos degradaria. É esta, não obstante, a primitiva, a destrutiva e desesperada demanda que o corpo nos faz. O corpo, sob tortura, nos tortura, exigindo de nós que o libertemos da tortura, seja a que preço for. Ele se torna, portanto, aquém de quaisquer valores, numa faixa de realidade psíquica anterior às mais mínimas exigências da ética e da honra, o porta-voz dos torturadores, aliado destes na sinistra empreitada que nos quer anular enquanto dação e da violência (sic), é a palavra aviltada de um sujeito que, nas mãos do torturador, se transforma em objeto.

Ao quebrar-se frente à tortura, o torturado consuma - e assume - uma cisão que lhe rouba o uso e o gozo pacíficos do seu corpo . A ausência de sofrimento corporal, ao preço da confissão que lhe foi extorquida, lhe custa a amargura de sentir-se traidor, traído pelo próprio corpo. Sua carne apaziguada testemunha e denuncia a negação de si mesmo, enquanto pessoa.

A tortura, quando vitoriosa, opera no sentido de transformar sua vítima numa desgraçada - e degradada - espectadora de sua própria ruína.

Por isto, o torturado não pode falar, embora esta seja uma exigência quase sobre-humana. Sua não-fala, ou a fala do despistamento, constituem, na tortura, o discurso do herói. Um tal silêncio, no entanto, vai provocar o recrudescimento da violência e o risco da morte física. 

Se o torturado não fala, pode morrer fisicamente. Se fala, e confessa, sucumbe a uma discórdia fundamental e morre como pessoa. Ao torturado, na tortura, só resta a saída - inimaginavelmente difícil - do silêncio. Através dela, garante e afirma, em grau heróico, a sua integridade de pessoa, pela realização de um valor supremo.

O torturador, este não tem saída nenhuma. Quando consegue êxito - e esta é a sua melhor hipótese -, o torturador, à semelhança da hiena, passa a alimentar-se de um cadáver. A confissão do torturado significa o seu assassinato enquanto pessoa. O torturador vitorioso tem, portanto, nas garras e nos dentes, os despojos massacrados de um sujeito humano. Ele vive da morte - e na morte. Sem interlocução, ausente de qualquer diálogo vivo, o torturador determina sua essência a partir do supremo aviltamento do Próximo e, nesta medida, ao constituir-se, se avilta. Para que se afirme, o torturador tem que negar, radicalmente, a pessoa do torturado. Ele cresce, e passa a existir, na exata proporção em que sua vítima se anula. Sem alteridade genuína, o ser humano não se funda enquanto tal. É este o caso do torturador, mesmo na melhor de suas hipóteses, isto é: quando o torturado fala. Na pior delas, frente ao silêncio do torturado, o torturador se reduz a nada. Necrófilo, a ereção da pessoa, nele, tem como pedra fundamental a morte do Outro. Se este se nega a morrer, morre o torturador. Sua afirmação depende, de maneira absoluta, da negação de sua vítima.”

Hélio Pellegrino - A Burrice do Demônio. Ed. Rocco, 1989.

Tuesday, August 04, 2020

Vida precária, vida passível de luto

[...] não há nenhuma condição que possa 'resolver' completamente o problema da precariedade humana. Os corpos passam a existir e deixam de existir: como organismos fisicamente persistentes, estão sujeitos a ataques e a doenças que colocam em risco a possibilidade de simplesmente sobreviver. São características necessárias dos corpos - não podem 'ser' pensados sem sua finitude e dependem do que está 'fora deles' para serem mantidos - características que são próprias da estrutura fenomenológica da vida corporal. Viver é sempre viver uma vida que é vulnerável desde o início e que pode ser colocada em risco ou eliminada de uma hora para outra a partir do exterior e por motivos que nem sempre estão sob nosso controle.

[...] Nenhuma quantidade de vontade ou riqueza pode eliminar as possibilidades de doença ou de acidente para um corpo vivo, embora ambas possam ser mobilizadas a serviço dessa ilusão. Esses riscos estão embutidos na própria concepção da vida corporal considerada finita e precária, o que implica que o corpo está sempre à mercê de formas de sociabilidade e de ambientes que limitam sua autonomia individual. A condição compartilhada de precariedade significa que o corpo é constitutivamente social e interdependente [...]. Todavia, precisamente porque cada corpo se encontra potencialmente ameaçado por outros corpos que são, por definição, igualmente precários, produzem-se formas de dominação.

Todavia, precisamente porque cada corpo se encontra potencialmente ameaçado por outros corpos que são, por definição, igualmente precários, produzem-se formas de dominação.

Essa máxima hegeliana assume significados específicos nas condições bélicas contemporâneas: a condição compartilhada de precariedade conduz não ao reconhecimento recíproco, mas sim a uma exploração específica de populações-alvo, de vidas que não são exatamente vidas, que são consideradas 'destrutíveis' e 'não passíveis de luto'. Essas populações são 'perdíveis', ou podem ser sacrificadas, precisamente porque foram enquadradas como já tendo sido perdidas ou sacrificadas; são consideradas como ameaças à vida humana como a conhecemos, e não como populações vivas que necessitam de proteção contra a violência ilegítima do Estado, a fome e as pandemias. Consequentemente, quando essas vidas são perdidas, não são objeto de lamentação, uma vez que, na lógica distorcida que racionaliza sua morte, a perda dessas populações é considerada necessária para proteger a vida dos 'vivos'.

Judith Butler - Quadros de guerra: Quando a vida é passível de luto? tradução de Sérgio Lamarão e Arnaldo Marques da Cunha. 2009 - 2015

Saturday, May 09, 2020

Wednesday, December 18, 2019

Thursday, January 17, 2019

Irmãos: uma história do PCC

Presídio Presidente Venceslau 2

A 'problemática' do crime no Brasil não permite solução em médio prazo. Não se trata aqui do debate em torno das causas estruturais diretamente ligadas à miséria. No presente imediato a rede de interesses que se formou em torno do dinheiro produzido pelo crime é o impeditivo central. Gabriel Feltran, professor do departamento de sociologia da UFScar e diretor do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), publicou 'Irmãos: uma história do PCC', onde apresenta parte do resultado de duas décadas pesquisando o chamado 'crime organizado' no Brasil. A seguir transcrevo o texto da orelha do livro, em que Feltran e a obra são apresentados. É o primeiro de uma série de 4 posts através dos quais pretendo apresentar poucos, porém alarmantes, aspectos de um quadro que, tudo indica, só tende a se agravar diante do vácuo de propostas do novo Ministério da Justiça.

IRMÃOS: UMA HISTÓRIA DO PCC

O Primeiro Comando da Capital nasceu na cadeia, em 1993, um ano depois do Massacre do Carandiru. Legitimou sua autoridade no cárcere ao aplicar políticas de interdição do estupro, do homicídio considerado injusto e do uso de crack. Ao longo dos anos, a guerra contra os 'coisa' - como são chamados policiais, facções rivais, estupradores e alcaguetas - se tornou a contra-face da "paz entre os ladrões', premissa que impulsionou a expansão do PCC via regulação econômica de mercados ilegais e reivindicação do monopólio da força e da justiça no crime.

Em 'Irmãos', o sociólogo Gabriel Feltran oferece uma interpretação alternativa àquelas que buscam comparar o PCC com outras organizações criminosas - como os comandos cariocas, as gangues prisionais americanas ou as máfias italianas. Tendo realizado extensa etnografia nas periferias de São Paulo, seu argumento é que o modo de organização do PCC se assemelha às irmandades secretas, funcionando como uma maçonaria do crime - uma rede de apoio mútuo, pautada pelo respeito aos negócios e pela honra do outro irmão.

Feltran percorre os momentos cruciais da história do Comando desde sua criação em Taubaté até as violentas disputas entre facções a partir de 2017. Ele também retrata a presença do PCC nas dinâmicas locais e na regulação da violência cotidiana, bem como o impacto de suas ações em mercados como o de veículos roubados, que movimenta anualmente dezenas de bilhões de reais.

Original e contundente, 'Irmãos' apresenta um país em que o crime conquistou efetiva hegemonia política para parte significativa da população. Nele, o PCC emerge como uma instância de geração de renda, de acesso à proteção, de ordenamento social, de pertencimento e de identificação, desafiando o projeto de uma comunidade nacional integrada, promessa que a redemocratização não conseguiu cumprir.

Tuesday, August 21, 2018

OTÁVIO FRIAS FILHO. 1957 - 2018

[...] No dia 17 de setembro de 1977 Cláudio Abramo foi afastado da direção da redação da Folha de São Paulo, atendendo a pressões do ministro do Exército, em seguida à publicação de uma crônica assinada por Lourenço Diaféria e tida como ofensiva à memória do duque de Caxias. Ninguém, a rigor, se incomoda com o duque propriamente dito, mas com o símbolo. No caso sobreleva, porém, o pretexto, e resta ver se foi mais dadivoso para o imperador ou para o senhor do feudo. O ministro Sílvio Frota concorria com o general João Figueiredo à sucessão do general Ernesto Geisel, e em função da relevância do seu posto e das suas ambições, era mais cotado na bolsa das apostas. Havia mesmo quem o entendesse qualificado para liderar o enésimo golpe dentro do golpe.
Recordo uma conversa que tive com Octávio Frias de Oliveira no gabinete de Cláudio, nos últimos dias de agosto de 77. Eu tinha informações de que o confronto estava próximo e tudo me levava a crer que a dupla Geisel-Golbery preparava uma esparrela sob medida para o general Frota. Frias não concordava, duvidava das intenções de Geisel, que no seu entender ainda não escolhera o seu sucessor, e dos reais poderes de Golbery. Frota caiu exatamente 25 dias depois de Cláudio, dia 12 de outubro. E Golbery observaria: "Mas se foi Frota quem pressionou, por que não chamam Cláudio Abramo de volta à direção da redação"?
[...] Otavio Frias Filho, diretor da redação e um dos proprietários da Folha de São Paulo, em entrevista publicada pela revista Playboy de maio de 1988, parece ter uma explicação funcional e política para a ascensão e queda daqueles que define como 'os barões' do jornalismo. Trata-se de personagens carismáticas, e entre elas Cláudio Abramo é a mais vistosa. Pelos barões, o jovem Otavio manifesta respeito, com a ressalva da obsolescência, devida à resistente paixão que alimentam pelas mitologias dos anos 70. Pelo jeito, recomenda-se guardá-los em naftalina - com todo o respeito, é claro. Com afetuoso desvelo. Mas seus dias terminaram, só resta mesmo enterrá-los com honra.
A que mitologias Otavio Frias Filho se refere não se entende com clareza. Decerto é difícil distinguir velho e novo neste lugar atrasado. Temos, porém, cidadãos que se têm em conta de moderníssimos, mas até hoje poderíamos classificá-los como Lévi-Strauss definia espécimes da aristocracia paulistana há cinqüenta anos: acham-se muito refinados e não sabem como são típicos. Em todo caso, constatações desse gênero propiciam magros consolos. A oligarquia é típica, mas se mantém a cavaleiro do tempo. A gente apanha e, de quebra, tem de suportar as explicações de quem pretende justificar-se no poder com meras palavras. Fosse só com palavras, estaria apeado.
Mino Carta, Junho de 1988
PREFÁCIO a A Regra do Jogo: o jornalismo e a ética do marceneiro. Cláudio Abramo. Organização e edição: Cláudio Weber Abramo.


© Espólio de Cláudio Abramo, Fábio Cypriano, Pedro del Picchia, Wilson Ferreira Júnior e Luiz Nassif. Cia da Letras, 1989.




Sunday, May 17, 2015

Brasil Vai Voltar a Crescer e Panelaços Irão Acabar

Entrevista - Chico de Oliveira

ELEONORA DE LUCENA - FOLHA DE SÃO PAULO 17/05/2015 

A crise parece muito grande, mas não é. O Brasil vai voltar a crescer, tem uma economia privilegiada e será uma sociedade mais igualitária. A burguesia do país é muito autoritária, mas seu jogo não vai prosperar. Os panelaços não terão continuidade. "A sociedade não aguenta mais ver a demissão de 2.000 pessoas".

A análise é do sociólogo Francisco Maria Cavalcanti de Oliveira, 81. Para ele, o país vive como em um baile, onde tudo está em movimento, o que gera sensações de pressa e angústia. "Isso é ótimo. A pior coisa é a estagnação". E é preciso lutar pelo poder.

Fundador do PT e do PSOL, professor aposentado da USP e autor de clássicos como A Economia Brasileira: Crítica à Razão Dualista (1972), ele condena a ausência de ousadia dos últimos governos. "Brizola é o grande político que falta no Brasil. Falta alguém com audácia", diz.

Crítico do lulismo, que classifica como um movimento conservador, avalia que é possível, mas não provável, a derrota do partido em 2018. Na sua visão, Lula vai precisar se realinhar de forma radical, fazendo política de forma mais contundente, ou os tucanos voltarão ao poder. "Se houver um desastre e o PT for desalojado do poder, as burguesias nunca mais se esquecerão disso. Vão tentar manter o PT afastado", declara.

Nesta entrevista, concedida na sua casa na Vila Romana, em São Paulo, Chico de Oliveira fala de seu projeto para um novo livro. Quer tratar do que identifica como chances perdidas pelo lulismo, que deveria ter ampliado muito mais os benefícios sociais. "Erraram. Foi um sonho que poderia ter sido e não foi em toda a sua intensidade", afirma.

Raquel Cunha - 6.nov.2013 / Folhapress

Folha - O que está acontecendo no Brasil?

Francisco de Oliveira - As posições se acirraram porque tem o PT de um lado e os tucanos de outro. Todo o meio desapareceu. PDT, PPS, os democratas, outros partidos praticamente desapareceram. A consolidação de posições que são opostas dá essa sensação de que está tudo muito ruim, mas não está não.

O que há de bom nessa conjuntura?

Bom seria um exagero. É uma conjuntura cíclica, que vai e volta. A crise parece muito grande, mas não é. A concentração da crítica na Dilma é fogo de palha. Nem ela mesma tem o controle do partido dela. O controle ainda é do Lula. Mas Lula não é homem de partido, ele é muito personalista.

Há choque entre Lula e Dilma?

Vai haver sempre. Porque Lula elegeu a Dilma para ser um pau mandado. Mas, quando se chega à Presidência, a regra do pau mandado não vale. Ela tem pouco jogo de cintura político, tem que ouvir muito. O poder fica muito diluído.

Qual sua avaliação do governo Dilma? O que ela faz de bom e de ruim?

Nem nada de muito bom nem nada de muito ruim. É um governo médio e medíocre. Ela não é responsável pelos grandes males do país nem tem solução para esses grandes males. É uma presidente fraca. Votei com convicção nela nas duas vezes e não estou decepcionado. Ela me pareceu ser mais de acordo com as minhas percepções. O governo não tem quase respostas para nada, mas não faz o programa do PSDB. É um programa quase óbvio. Vai empurrando com a barriga. Felizmente, apesar de governos fracos, a tentação autoritária não está voltando.

A ascensão de movimentos mais conservadores nas ruas e no Congresso lhe preocupa?

Não me preocupo porque os tucanos não são populares. Eles não conseguirão galvanizar essa tentativa de desestabilização com apoio popular. Os tucanos sempre evitam recorrer às ruas. Panelaço não é o povo quem faz. Esse tipo de movimento não tem continuidade. Já o PT não pode mover-se com a facilidade que tinha antes de ser governo. Não acredito que o PT tenha solução para nada.

Há uma ascensão da direita?

Não vejo. A direita existe mais na imprensa do que no movimento real de setores da população. A sociedade brasileira é muito diversificada e não comporta uma direita extremada. Existe uma polarização entre os muito ricos e muito pobres. Mas esses dois segmentos não fazem política. A polarização se dá em picos. A linha de continuidade é muito por baixo e muito fraca. Os picos parecem nos espantar. A discussão do impeachment não vai para frente. Renan Calheiros e Eduardo Cunha são fracos. Se fosse com o Ulysses Guimarães, a senhora Dilma estaria dançando miudinho.

Como o sr. analisa a situação do Brasil no mundo?

O Brasil é área de disputa muito forte. É a sexta economia mundial ou algo nessa dimensão. É muito bom fazer negócios aqui, especialmente num momento em que EUA e Europa estão mais ou menos estagnados. A Índia é muito pobre. Na China, ou os negócios passam pelo Estado ou não passam. O Brasil é uma ilha de muita liberdade empresarial. Não tem muita regulação. Salvo em setores muito vulneráveis, se faz qualquer negócio em qualquer parte. O Brasil cresce. Agora está patinando, mas é só uma patinação. Esse ciclo é passageiro; haverá reativação. O Brasil não é um país condenado ao esquecimento. É por isso que é preciso lutar.

Lutar como e para quê?

Pelo poder. Numa sociedade estagnada a luta é mais fácil. Aqui, não. Aqui é como um baile: está tudo em movimento. Dá uma sensação ao mesmo tempo de pressa e de angustia. Porque você nunca está sossegado. E isso é ótimo. A pior coisa é a estagnação. É preciso andar para dar um mínimo para a população mais pobre. Não se pode mais deixar milhões sofrerem com necessidades básicas. Isso não existe. É preciso jogar a bola para frente –e correr atrás dela.

O perfil desse governo é mais protecionista ou liberal?

O governo não sabe se definir em relação a isso. Não sabe se é protecionista ou livre cambista. Vem de uma herança pesada. FHC jogou para destruir regras de proteção, fez um jogo liberal. O que não era esperado, pois sua tradição era pela esquerda. Lula não puxou para a esquerda. Daí vem a indefinição do governo federal, que prossegue com Dilma.

Reajustes reais do salário mínimo, Bolsa Família não são pontos de um governo de esquerda?

Sim, comparando com outros. A ironia é que são medidas capitalistas. Moro num prédio de classe média, onde quem trabalha na portaria já tem carro. É um índice de êxito do capitalismo, até certo ponto. Só um socialista louco –como já fui; hoje sou apenas socialista– para achar que eles não melhoraram de vida. Melhoraram extraordinariamente.

O sr. já afirmou que as esquerdas no Brasil, desde os tempos do auge do PC, passando pelo PT e pelo PSOL, nunca conseguiram ter um projeto para o país. Por quê?

As esquerdas são muito brasileiras: tendem mais à conciliação do que ao conflito. É da formação da sociedade e do Estado. As esquerdas também são muito conservadoras. Na redemocratização, em 1945, o projeto do PCB para o petróleo era privatista. Seguia a linha de aprofundar o capitalismo para criar condições para o socialismo. Esquerda e nacionalismo convergiram numa certa fase. A atual esquerda não tem projeto. Lula nunca teve; Dilma também não tem. O PT não sabe o que é o Brasil, não tem um projeto para o país. Está superado. Não vai acabar, mas não tem nada a dizer a respeito do desenvolvimento do Brasil. Vai empurrando com a barriga. É o partido da ordem.

Seu diagnóstico de esgotamento do PT significa previsão de derrota do partido em 2018?

É possível, mas não é provável. Quando jogo for pesado, Lula vai ter que se realinhar. De forma até radical, o que não é do estilo dele. Ou Lula volta a fazer política de forma mais contundente e mais consistente ou se prepara para entregar o queijo para os tucanos. Lula vai ter que ser mais partidário e retomar a militância política. Vai precisar dar apoio a Dilma para que o mandato não tenha um desenlace que caia em cima dele. Se houver um desastre e o PT for desalojado do poder, as burguesias nunca mais se esquecerão disso. Vão tentar manter o PT afastado.

Há personalidades alternativas?

Brizola é o grande político que falta no Brasil. Governou dois Estados (o RJ duas vezes). Não tem ninguém com esse perfil, com essa audácia. Falta alguém com audácia.

Como o sr. enxerga o Brasil a longo prazo?

Vai caminhar para ser uma sociedade mais igualitária. Não é otimismo. Em geral, a obrigação do cientista social é ser pessimista. Nenhuma sociedade aguenta o nível de desigualdade que se produziu no Brasil. Há pressão da população. Não existe manter 200 milhões de pessoas sob o jugo da desigualdade, reprimida por inteiro. No longo prazo seremos mais igualitários. A democracia está ao alcance das mãos; não é um sonho utópico e é necessária. Menos para os democratas e mais para os não democratas. Quem estiver jogando jogo autoritário não vai aguentar. A burguesia brasileira é muito autoritária. Mas hoje a sociedade não aguenta mais ver a demissão de 2.000 pessoas. Ela não permite. As empresas não são mais donas absolutas do jogo econômico social e político. Têm que prestar contas à sociedade. O confronto deslocou-se do âmbito de empresas e sindicatos para a sociedade.

Como avaliar politicamente essa fração da população que ascendeu nos últimos anos?

Ninguém sabe. É como olhar dentro de uma chaleira. Há vários pontos de ebulição. Há uma ebulição geral na sociedade. Mas o Brasil vai melhorando, incluindo mais gente. É a forma do capitalismo se renovar. Ninguém pense em reformas profundas. As reformas são dadas pelo crescimento econômico e pelo crescimento da população. Pela alfabetização. Essas são as reformas que movem a sociedade. Eu, como um velho socialista –mais velho do que socialista–, não vejo revolução à vista. O Brasil vai engatar, vai crescer. É impossível conter 200 milhões de pessoas, cada uma querendo o melhor para si. Esse egoísmo capitalista é positivo. O socialismo é algo para além.

O sr. planeja um novo livro?

Sobre o ciclo do lulismo. A chance que o Brasil teve desde FHC e, com mais intensidade com Lula, não é de fácil repetição. FHC abre o ciclo. É homem de elite, não gosta do Nordeste, dos pobres. Tenho desgosto em relação a isso. Trabalhamos muito juntos; ele não era assim. O Lula não fez nada de excepcional, não na dimensão que poderia. Excepcional foi o Brasil desde 1930. Agora a chance foi desperdiçada, principalmente por Lula. O capitalismo só funciona com inserção social e não houve nenhum milagre no Brasil. A economia brasileira é privilegiada, disputada. Mas está faltando capacidade de aproveitar isso, ocupar espaços. No passado, quem percebeu isso com lucidez foi San Tiago Dantas (1911-1964, ministro de João Goulart). Ele meteu o pé. Hoje também há oportunidades, mas não há percepção.

Como seria o título do livro?

Vi recentemente Um Sonho Intenso [documentário de José Mariani] e tem um título me perseguindo que é Um Pesadelo Intenso. Pela frustração dessa oportunidade única. Erraram. Foi um sonho que poderia ter sido e não foi em toda a sua intensidade. Não culpo a Dilma. É o lulismo que, contraditoriamente, é muito conservador. Lula não ousa tudo o que poderia ter ousado. O que ele fez em relação à previdência social? Basicamente nada. Quando não se pode incluir pela expansão do mercado, essa é a forma de inclusão, fora do mercado. Ele poderia ter feito um esforço mais intenso para ampliar os benefícios sociais. E isso não é risco para o Tesouro, porque vem compensação pelo outro lado – pela expansão da economia, pelo aumento de arrecadação. Era hora de meter o pé no acelerador e Lula fez o contrário.

Como o sr. avalia o caso Petrobras?

Petróleo ainda é o melhor negócio do mundo. A Petrobras é de 1953 e avançou. Vargas foi obrigado a se suicidar por isso. Os norte-americanos até hoje não engolem o fato de ela ser estatal, mesmo sendo um estatismo frouxo. Não engolem porque é um filé. Está abalada hoje. Há pressão para que ela seja fatiada. A burguesia brasileira quer pegar nacos. A Petrobras é um item de segurança nacional; não pode ser privatizada.

E a questão da corrupção envolvendo empreiteiras?

Há tempos, quando todo mundo se desesperava com isso, Ignácio Rangel (1914-1994), que era realista e cético, dizia: "A corrupção é o creme do capitalismo. Não se desesperem, isso é sinal de que o capitalismo está se expandindo". É isso: tudo é corrupto no capitalismo. 

Tuesday, May 12, 2015

O Pedreiro do Verso

São Paulo, domingo, 22 de maio de 1994 +mais!

JOSÉ GERALDO COUTO

"Entre a dor de cabeça e a angústia, eu preferia a dor de cabeça." A frase – que parece uma versão mais concreta da famosa "entre a dor e o nada eu fico com a dor", de Faulkner – resume o humor agreste de João Cabral de Melo Neto.

Depois de décadas tomando seis aspirinas por dia, ele viu seu mal físico desaparecer inexplicavelmente ao final de uma operação de úlcera. Em seu lugar, instalou-se a angústia.

A angústia do maior poeta brasileiro vivo parece ter aumentado com a perspectiva da publicação, em junho, de sua obra completa, poesia e prosa, em um volume. Ele se diz lisonjeado, mas não evita a autopiada: "É uma coisa meio póstuma".

A publicação coincide com o momento de maior prestígio do escritor: em 1992 ele recebeu nos Estados Unidos o Prêmio Neustadt de Literatura, um dos mais importantes do mundo, e vem sendo apontado como favorito ao Nobel.

Nascido no Recife em 1920, o autor de Uma Faca Só Lâmina viveu no exterior como diplomata entre 1947 e 87, servindo em países como Espanha, Suíça, Portugal e Honduras.

Aposentado em 88, fincou pé no Rio com a mulher, a poeta Marly de Oliveira, 58. Nos últimos tempos, graves problemas de visão têm-no impedido de ler e escrever. Ele, que não gosta de música, passa o dia ouvindo a rádio de notícias CBN.

Nesta entrevista, em seu apartamento no Flamengo, falou sobre poesia, futebol, toureiros e realismo socialista. E mostrou que o humor e a lucidez continuam afiados.


Folha - A publicação de suas obras completas é, por certo, uma distinção. Mas não incomoda ao sr. ver sua obra transformada num monumento?

João Cabral de Melo Neto - Para mim, dá a impressão de uma coisa meio póstuma, sabe? (risos). Mas eu fico muito, como se diz, "flaté" (lisonjeado) de ter sido escolhido vivo, ainda.

Folha - Nas próximas edições, espero que a editora tenha de incorporar os poemas que o sr. ainda vai fazer.

João Cabral - Com esse negócio de olhos – estou com a visão muito ruim dos dois olhos –, acho difícil. Eu, para escrever, preciso ver muito o que eu estou escrevendo, compreende, sou incapaz de compor uma coisa de cabeça e ditar. O poema, para mim, é como se eu pintasse um quadro. Preciso ver como é que está ficando a forma dele. De modo que eu tenho a impressão de que, apesar de ter muita coisa começada, não sei se eu poderei terminar. Mas não precisa dar essa nota de pessimismo, não, porque pode ser que eu melhore e tudo mude...

Folha - Como é o seu processo de trabalho?

João Cabral - Eu demoro muito a escrever. Tem poemas meus que eu levei dez anos para escrever. Faço um esboço, trabalho sobre ele, depois deixo, depois retomo. Não sou desses escritores de "suspiros poéticos e saudades", título do livro daquele poeta romântico (Gonçalves de Magalhães). Para um sujeito desses, não ter a vista não é nenhum problema. Basta a ele cantar seus poemas (risos).

Folha - Saiu recentemente uma biografia do Carlos Drummond, Os Sapatos de Orfeu, de José Maria Cançado, que fala do afastamento entre ele e o sr. a partir de uma certa época...

João Cabral - Não houve afastamento nenhum. O que o pessoal ignora é que desde 47 eu vivi no estrangeiro. Eu era diplomata de carreira. De 47 a 87 eu vivi fora do Brasil. Não houve afastamento nenhum. Eu não sou de escrever carta, compreende, mas eu continuei amigo do Carlos até ele morrer. Aliás, eu estava no Porto quando ele morreu. De minha parte não houve afastamento. Se houve da dele, não sei. Carlos Drummond nunca foi muito homem de receber visita. Em geral ele era encontrável na cidade. Minhas passagens pelo Rio eram rápidas, quando eu mudava de um posto para outro, de forma que eu nem ia no centro da cidade.

Folha - Outro poeta que foi muito seu amigo, mas que de certa forma é seu antípoda poético, foi Vinícius de Moraes. O sr. acha que o Vinícius, de certa maneira, representava uma tendência comum entre os artistas brasileiros de ceder a uma certa lassidão, a uma certa autocomplacência, a uma tendência à facilidade, em sua literatura?

João Cabral - Vinícius fez a poesia que ele queria fazer. Ele era capaz de fazer as poesias mais sofisticadas, se quisesse, como também era capaz de compor samba. Ele era um poeta de uma habilidade como não conheci outro igual. De forma que, se ele entrou por esse caminho do samba, foi porque ele quis. Porque antes ele tinha feito coisas da maior sofisticação.

Folha - A propósito: em seu discurso de agradecimento pelo prêmio Neustadt, no ano passado, o sr. dizia que o lirismo, hoje, é representado pela música popular, e que a poesia tem de ser outra coisa...

João Cabral - A poesia lírica, como o nome diz, é feita para ser cantada. Agora, depois do romantismo, todo mundo faz uma poesia de assunto, vamos dizer, cantável, mas para a qual não se faz música. Então o lirismo se desligou da música. Mas o verdadeiro lirismo é o lirismo para ser cantado. Por exemplo: teatro lírico o que é? É a ópera. Antes do romantismo, existia uma poesia épica, uma poesia histórica, uma poesia didática, até uma poesia epistolar. Uma vez o rei da Espanha se casou com uma princesa italiana, se não me engano, e havia uma duquesa muito rica lá em Madri que não podia receber a princesa no porto de Valência, mas estava curiosa para saber da festa da chegada. Naquele tempo não tinha televisão, nem imprensa, então ela contratou o Lope de Vega para ir a Valência e descrever para ela as festas da chegada da princesa. E o Lope de Vega fez uma série de cartas em verso descrevendo a cerimônia. Então, havia uma poesia epistolar, geográfica. Eu tenho a impressão de que a poesia puramente lírica é a poesia cantada. Agora, tem muita gente que faz poesia lírica, mas que não é para ser cantada, porque não encontra compositor para botar a música (risos). O Vinícius foi consequente com o lirismo dele ao desembocar na música popular. Ele deve ter sentido isso que eu estou dizendo.

Folha - Uma das suas particularidades é a de não gostar de música, e em sua poesia o sr. de certo modo evitou a música...

João Cabral - Aí é o seguinte: eu realmente não tenho ouvido para a música, compreende, e só gosto de duas músicas: o frevo de Pernambuco e o flamenco da Andaluzia. O resto de música não me interessa. Mas o negócio é que música não é só melodia. Música é ritmo também. E minha poesia é musical no sentido de que ela é fortemente rítmica.

Folha - Mas o sr. sempre evitou os ritmos mais tradicionais, como a redondilha...

João Cabral - Ah, sim. Mas aí é porque esse ritmo já tinha se tornado melodia, compreende? Eu não sou auditivo. se eu vou a uma conferência, de repente percebo que não estou prestando atenção ao que diz o conferencista. Tenho a impressão de que deve ser influência do colégio marista, em que eu ouvia tanto sermão e tanta música clássica. Sou incapaz de me recordar de uma música. Só lembro do hino de Pernambuco e do hino brasileiro. Minha atenção é visual. Uma coisa que eu leio, uma coisa que eu vejo, eu não esqueço nunca. Não se pode dizer isso de toda música, mas em geral a música me faz dormir. E, como dizia Valéry, ele estava sempre à procura não do que o fizesse dormir, mas do que o fizesse despertar. Eu também estou sempre à procura de uma coisa que me acorde, e não de uma coisa que me embale. Você vê, por exemplo, que eu não tenho poemas cantantes, não tenho poemas de embalar. Eu procuro uma linguagem em que o leitor tropece, não uma linguagem em que ele deslize. O Pierre Reverdy dizia: o poeta é "maçon" (pedreiro). Ele ajusta as pedras. O prosador é "cimentier" , ele "coule le ciment" (espalha o cimento). Eu procuro fazer uma poesia que não seja asfaltada, que seja um calçamento de pedras, em que o leitor vá tropeçando e não durma, nem seja embalado.

Folha - Eu gostaria que o sr. falasse de outro poeta que parece radicalmente oposto ao sr., o Mário Quintana, morto recentemente, que tinha aquela coisa de valorizar a inspiração e se dizer poeta em tempo integral...

João Cabral - Pois é, mas aí é que está o negócio da sensibilidade poética. Eu, apesar de ter essas minhas ideias, minha sensibilidade não se fecha a outro tipo de poesia. Eu achava Mário Quintana um grande poeta, como acho o (Augusto Frederico) Schmidt um grande poeta. Cecília Meireles, que tem uma música, uma poesia embaladora, é uma grande poeta. O Jorge de Lima, que tinha também aquela poesia meio retórica, como o Schmidt, é um grande poeta. Minha sensibilidade não se fecha a essa gente. Quer dizer, quando eu faço, tento fazer uma coisa. Mas isso não quer dizer que eu só goste daquilo. Eu devo muito ao Paul Valéry, mas gosto imensamente da poesia de Paul Claudel, que era o contrário. Felizmente tenho essa capacidade, de gostar de uma poesia que seja o oposto da minha.

Folha - O sr. simpatizou muito com a poesia concreta. Não acha que em suas atitudes mais radicais – a abolição do verso, o próprio desmembramento da palavra –, o concretismo acabou dando num beco sem saída?

João Cabral - Eu tenho a impressão de que aquelas experiências concretistas não estavam esgotadas. Eles podiam continuar fazendo aquilo. Agora, se eles sentiram necessidade de fazer outra coisa, é um problema deles. Mas a experiência deles não estava esgotada. É a mesma coisa que dizer que a pintura do Mondrian estava esgotada. Mondrian morreu, deixou de pintar, mas podia ter continuado naquelas experiências. Existe uma concepção agora de que o autor tem sempre que se renovar. Eu tenho a impressão de que o autor, depois que chega à sua maneira pessoal, deve desenvolver aquilo e executar aquilo, e não viver num estado permanente de evolução. Você vê na pintura, por exemplo, ou na escultura. Hoje você pega dois tijolos, amarra com arame e diz que é uma escultura. O realismo socialista era uma coisa válida para os países socialistas; Zhdanov queria que os poetas cantassem a grandeza da União Soviética

Folha - Nessa discussão sobre o fim do suporte nas artes plásticas – hoje não se fazem mais pinturas ou esculturas, mas instalações, intervenções etc. –, o sr. teme que isso possa levar a uma espécie de vale tudo, de total falta de critérios...

João Cabral - Eu acho. Eu tenho a impressão de que a evolução não se dá com salto triplo, se dá com salto à distância, compreende? Quer dizer, o sujeito não pode evoluir três estágios à frente do que estão fazendo à sua época. Você procura partir de sua época e dar um passo à frente, e não de repente dar um salto de 17 metros, como é o salto triplo.

Folha - Na poesia há quem veja também um impasse análogo, a necessidade de a poesia, para sobreviver, se combinar com outros meios...

João Cabral - Eu não vejo impasse na poesia. Ela tem uma evolução natural, cada pessoa tem sua voz e deve chegar ao extremo dela. Eu acho que é possível escrever poesia ainda hoje sem recorrer a esses outros meios. Numa tese que apresentei nos anos 50, num congresso de poesia, eu digo que os poetas não estão usando devidamente o rádio, a televisão e outros meios de comunicação modernos. Agora, está claro que você não vai usar esses meios modernos escrevendo sonetos. Se você for utilizar esses meios você tem que adaptar a sua poesia a eles.

Folha - O artista plástico Luiz Paulo Baravelli escreveu certa vez que "há arte demais no mundo". Levando em conta não só a poesia ruim que se publica, mas também a linguagem floreada e sentimental usada pelos políticos e por setores da imprensa, da televisão e da publicidade, o sr. diria que "há poesia demais no mundo"?

João Cabral - A Elisabeth Bishop, poetisa norte-americana extraordinária que viveu no Brasil muitos anos e traduziu diversos poetas brasileiros, inclusive eu, dizia que o mal da poesia brasileira era o excesso de sentimentalidade. Eu tenho a impressão de que, de fato, a curva de derrapagem da nossa poesia é a sentimentalidade. Muita gente confunde poesia com sentimentalidade.

Folha - O sr. fez poemas sobre jogadores de futebol e toureiros. Acharia possível fazer um poema para a Fórmula 1?

João Cabral - Acho que sim. Por que não? Acho que não há assunto fora da poesia, nem assunto dentro da poesia. A poesia está na maneira como você trata o assunto. Você veja que na minha poesia eu procurei tratar de assuntos os mais prosaicos.

Folha - Até a aspirina.

João Cabral - Pois é. A aspirina, aliás, para mim não é nada prosaica. Eu a comparo a um sol. Depois é que eu soube que a aspirina é euforizante. Tenho a impressão de que essa minha depressão hoje é falta de aspirina. Resolvi tomar uma por dia (eu tomava seis), mas, como eu não tenho mais dor de cabeça, eu esqueço.

Folha - O sr. disse que a aspirina tem um efeito euforizante. Imagino que, pela sua própria concepção do fazer poético, o sr. deva rejeitar todo tipo de droga ou auto-indução no momento de escrever.

João Cabral - Ah, sim. Quero escrever sempre em plena consciência. Até o Rubem Braga, que era um bom copo, dizia que só escrevia as crônicas dele quando estava perfeitamente sóbrio.

Folha - Voltando ao futebol. O sr. continua acompanhando?

João Cabral - Não vou mais ao estádio, mas acompanho. Gosto muito de futebol. Fui campeão juvenil de Pernambuco pelo Santa Cruz, em 1935, quando tinha 15 anos. Sempre me interessei muito por futebol.

Folha - Existe algum jogador atual que poderia motivar um poema seu, como foi o caso de Ademir da Guia?

João Cabral - Tem. Esse Jorginho, por exemplo, eu acho um craque. Bebeto, Romário, também. Eu não era atacante, sabe? Eu jogava de "center-half", que corresponde hoje mais ou menos ao número 5: distribuía o jogo e defendia ao mesmo tempo a cabeça-de-área. Eu fui campeão pelo Santa Cruz, mas o meu clube era o América do Recife. Por isso que aqui no Rio eu sou América, e em São Paulo eu sou Palmeiras, porque verde era a cor do América.

Folha - O sr. acha que o Brasil tem condições de ganhar essa Copa do Mundo? Concorda com a filosofia do Parreira?

João Cabral - Acho que tem condições. Quanto ao técnico, eu sou de um tempo em que o técnico era um cidadão que apenas escalava o time e soltava dentro do campo para jogar. Agora, o técnico é um sujeito que quer jogar xadrez. A tendência do futebol brasileiro é querer jogar igual ao futebol europeu. O futebol-força e velocidade. Eu gostava de um jogador como Ademir da Guia porque era um jogador que jogava cadenciado. Nele eu via o futebol brasileiro. Para mim foi sempre o forte do futebol brasileiro um jogo cadenciado. O brasileiro joga futebol como quem toca um instrumento musical. Tenho a impressão de que isso se deve em parte ao contingente de sangue negro na população brasileira. O brasileiro joga com um ritmo diferente. Agora, você vê a crônica esportiva, os locutores usam "ritmo" no sentido de "velocidade". Quando dizem que um time está jogando "com ritmo", querem dizer que joga com velocidade. Ritmo não é velocidade, ritmo é cadência. Ela pode ser rápida ou pode ser lenta.

Folha - O que interessa ao sr. em certos jogadores de futebol, assim como em certos toureiros, é justamente o ritmo e a precisão – que é o que permite um paralelo com o fazer poético, não é?

João Cabral - Exato. Naquele poema Alguns Toureiros eu digo que aprendi com Manolete a não poetizar o poema. Porque esse é o problema de muito poeta: é que ele faz um poema poético. Quer dizer, faz um poema a partir de elementos já convencionalmente poéticos. Ele perfuma a flor. É como se você planta uma rosa e depois acha que a rosa não está cheirando o suficiente e aí põe, em cima da rosa, perfume de rosas para ela cheirar mais (risos). Eles perfumam o poema. Existem toureiros que fazem isso também, floreiam demais o jogo.

Folha - No futebol, o jogador que faz isso seria o "firuleiro", o que faz muita "firula". O sr. disse uma vez que não gosta do futebol da Espanha. Por quê?

João Cabral - Mário de Andrade dizia que a única coisa de que ele não gostava de Minas era o queijo. Eu digo que a única coisa da Espanha de que eu não gosto é o futebol. O andaluz talvez pudesse jogar um futebol cadenciado como o nosso. Mas acontece que na Europa predomina o futebol-força e o espanhol procura jogar à européia, não à latino-americana. Os africanos – os Camarões, por exemplo – têm um jogo muito mais próximo da América Latina do que da Europa.

Folha - O sr. sempre se considerou mais pernambucano do que propriamente brasileiro...

João Cabral - Eu acho que há uma cultura nordestina. O sujeito não pode entender minha poesia como a poesia de um brasileiro qualquer. É de um brasileiro de uma determinada região. Eu sou brasileiro na medida em que sou nordestino, e sou nordestino na medida em que sou pernambucano. Você não pode ser brasileiro "em geral". Eu não conheço o Amazonas, estive em Porto Alegre uma vez, nunca fui ao Mato Grosso. Como é que eu posso me dizer brasileiro "em geral"?

Folha - Como o sr. vê essas tendências separatistas surgidas no Sul do país?

João Cabral - Isso não tem muito sentido. É oportunismo político. Aliás, há uma coisa muito interessante. Você vê, a América espanhola se dividiu toda, não é? Porque a Espanha é um país centrífugo: nela convivem regiões diferentes, com culturas muito diferentes. Ao passo que Portugal é um país centrípeto. Portugal só existe na medida em que ele tiver consciência dele próprio, porque senão é engolido. É um pedacinho da península Ibérica. E nós herdamos dos portugueses esse espírito centrípeto. Por isso é que a América portuguesa ficou unida. Não vejo nenhum futuro para o separatismo.

Folha - Nas eleições presidenciais de 89, o sr. disse que votou, no primeiro turno, no Roberto Freire, e no segundo, no Lula – ambos por serem pernambucanos. Este ano, aparentemente só tem um pernambucano na disputa, o Lula. Seu voto é dele?

João Cabral - A lei eleitoral dispensa o voto dos maiores de 70 anos. Como estou tão ruim da vista, seria um sacrifício para mim ir votar. Aliás, nem sei mesmo se eu conseguiria distinguir a célula branca da amarela. Agora, se eu tivesse de votar, não sei. Não se sabe ainda quem são os candidatos. Pode ser que até lá apareça um outro pernambucano, não é? (risos)

Folha - Na época em que o sr. começou a escrever, e especialmente depois da guerra, havia uma grande solicitação para que os artistas participassem da luta política. Havia os escritores católicos e havia os escritores de esquerda, comunistas. O sr., apesar de ter formação católica, não era mais católico. Com que linha política o sr. se identificava?

João Cabral - Olhe, quando, depois da guerra, o Zhdanov começou a pregar o tal realismo socialista, houve essa grande cisão. O realismo socialista foi mal entendido no mundo todo, inclusive na França, onde provocou uma porção de coisas da pior qualidade. Agora, o problema desse negócio de poesia social é que os sujeitos que defendiam a poesia social escreviam para dizer "É preciso fazer poesia social ", mas não faziam poesia social. Faziam poesia programática. Agora, a poesia social, uma poesia que alcançasse o povo, eles não faziam. Eles ficavam na pregação de princípios. Fazer poesia para o povo começaria por usar formas populares.

Folha - É um pouco o que o sr. tentou fazer com Morte e Vida Severina e O Rio. Mas uma vez o sr. se lamentou que esses poemas não chegavam propriamente ao povo.

João Cabral - Esse negócio de povo é uma coisa muito difícil. Eu acredito que esses poemas não cheguem, vamos dizer, ao interior de Pernambuco, onde o sujeito está acostumado a romance de cordel, mas ao público de classe média têm chegado. Você sabe que Morte e Vida Severina continua sendo levada? Ainda agora está sendo levada na Ilha do Governador por esse Teatro da Terceira Idade. E chegou até à televisão. Mas eu não creio que o sertanejo se interesse por Morte e Vida Severina. Tem gente do povo que se interessa por Morte e Vida Severina e tem gente que é povo para quem Morte e Vida Severina não diz nada. Há muitas camadas de "povo", principalmente num país como o nosso de analfabetismo e falta de instrução.

Folha - Pelo que entendi, o sr. acha que o realismo socialista de Zhdanov foi mal interpretado. Mas a ideia original era boa?

João Cabral - Era uma coisa válida para os países socialistas. O que o Zhdanov queria era que os romancistas e os poetas cantassem a grandeza da União Soviética. Agora, o francês, por exemplo, não tinha por que cantar a grandeza da França. Se ele cantasse a grandeza da França, ele não estava fazendo realismo socialista, porque a França não era um país socialista. Quer dizer, o realismo socialista não era uma arte crítica. Para ter realismo socialista fora da União Soviética, teria que ser uma arte crítica. E isso o Zhdanov não viu. Porque ele pregou as ideias dele para a União Soviética. O erro foi transplantar essas ideias para uma situação diferente. Isso fez muito mal, por exemplo, para a pintura francesa.

Folha - O sr., evidentemente, concordava com aqueles que defendiam uma arte participante...

João Cabral - Pois é, uma poesia que chegasse ao povo. Eu achava que a poesia estava fechada demais e tentei abri-la um pouco mais. Mas depois eu vi que era um negócio muito difícil por essa coisa de que o leitor no Brasil é a elite, de forma que você, queira ou não queira, acaba escrevendo para essa elite. Como é que você vai escrever para o sertanejo, que não sabe nem ler?

Folha - Uma coisa da qual o sr. raramente fala é de cinema. O sr. foi sócio da cinemateca de Londres, não é verdade?

João Cabral - É. Eu fui maníaco de cinema. Em Londres existiam muitos clubes de cinema, e eu era sócio de uma porção deles. Praticamente toda noite eu ia com minha mulher a um cineclube desses. Eles passavam filmes antigos, clássicos, de forma que eu praticamente vi toda a história do cinema.
Agora, cinema contemporâneo mesmo, eu via muito até ir para a Europa, porque aqui no Brasil era legendado. Quando eu cheguei na Espanha, encontrei o cinema dublado, que me tirou completamente o interesse pelo cinema. Porque você vê um grande ator sendo dublado por um ator de segunda, perde completamente o impacto. Infelizmente, por essa coisa de viver no estrangeiro, eu não sei nada do cinema brasileiro. Nunca vi um filme de Glauber Rocha, nem de Nelson Pereira dos Santos.

Folha - Qual foi o último filme que o sr. viu?

João Cabral - Faz uns dois anos, uma filha minha me levou em Copacabana para ver aquele filme chinês, Lanternas Vermelhas. Gostei.

Folha - Sempre houve uma grande sensualidade na sua poesia, mesmo nos primeiros livros, até no uso das expressões "macho" e "fêmea" atribuídas a cidades, regiões, objetos.

João Cabral - Pois é. Talvez essa sensualidade tenha se tornado depois mais explícita, ao escrever sobre Sevilha. Sevilha é uma cidade muito feminina, e eu escrevi muito sobre bailarina de flamenco. Mas, como você viu bem, antes da Andaluzia já havia sensualidade em minha poesia.

Folha - O sr. se queixou numa entrevista de que a crítica não tinha percebido o humor presente em sua poesia. Pode falar um pouco sobre isso?

João Cabral - A crítica percebe outro tipo de humor. Você vê, por exemplo, o meu livro Dois Parlamentos. Um é sobre o problema da seca no Nordeste, outro é sobre o trabalhador da zona da mata. São duas situações injustas diante das quais eu, em vez de fazer uma poesia me apiedando dessas situações, dou uma vaia nelas. Quer dizer, é um pouco a técnica do Jonathan Swift no livro The Country of the Houyhnhnms, que aliás é o título de um poema meu. É uma terra em que os cavalos são os homens e os homens são os criados dos cavalos. Ele descreve o homem como um animal sujo e inferior, e os cavalos é que mandam. Quer dizer, esse tipo de humor que eu uso é um humor swiftiano. Mas eu tenho a impressão de que não se lê muito Swift no Brasil.

Folha - Há outros poemas seus que têm um humor muito franco, direto. Por exemplo, aquele que diz que quem vai primeiro para o inferno são os motoristas de táxi, porque apesar de pagos sempre fazem seu trabalho a contragosto...

João Cabral - Ou quem está atrás de um guichê. Basta você pôr um sujeito atrás de um guichê, imediatamente ele se transforma, vira um pequeno ditador (risos).

Folha - Como é que é o seu dia-a-dia hoje?

João Cabral - Meu dia-a-dia foi sempre ler. Agora, como eu não posso ler, eu ouço rádio.

Folha - Dentro da poesia brasileira moderna, qual é, a seu ver, sua contribuição pessoal?

João Cabral - Eu acho que eu trouxe estas coisas: a preferência pela palavra concreta em vez da palavra abstrata; em segundo lugar, a ausência de embalo, de melodia; em terceiro, a existência do mundo exterior. Porque há muito poeta que você lê e tem a impressão de que o mundo exterior não existe para ele, só existe o mundo interior. Ao passo que na minha poesia você vê que o mundo exterior existe para mim, seja ele um quadro, uma paisagem, uma situação. Não sou nada confessional. Fui na contramão da sentimentalidade, do subjetivismo da poesia brasileira.

Folha - Até por isso, sua poesia é mais difícil, num primeiro contato, para o leitor comum.

João Cabral - Pois é. Por isso é que me espanta o interesse agora da Nova Aguilar em fazer uma edição tão cara de um escritor problemático.

Monday, January 12, 2015

A Quinta História



Esta história poderia chamar-se "As Estátuas". Outro nome possível é "O Assassinato". E também "Como Matar Baratas". Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, "Como Matar Baratas", começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de dentro delas. Assim fiz. Morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se "O Assassinato". Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranquila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.

A terceira história que ora se inicia é a das "Estátuas". Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompeia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras — subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! — essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: "é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de..." — de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.

A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila-indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: "Esta casa foi dedetizada".

A quinta história chama-se "Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia". Começa assim: queixei-me de baratas.

Clarice Lispector - A Legião Estrangeira