Wednesday, December 31, 2025

Zinco (II)

Caselli me entregou o zinco, voltei à bancada e me concentrei no trabalho: me sentia curioso, "embaraçado" e vagamente chateado, como quando você tem treze anos e precisa ir ao Templo recitar em hebraico a oração do bar mitzvah diante do rabino; chegara o momento esperado e um tanto temido. Tinha soado a hora do encontro com a Matéria, a grande antagonista do Espírito: a 'Hyle', que curiosamente se encontra embalsamada nas desinências dos radicais alquílicos: metil, butil etc.

A outra matéria-prima, o parceiro do zinco, ou seja, o ácido sulfúrico, não precisava ser entregue por Caselli: havia em abundância em todos os cantos. Concentrado, é claro: era preciso diluí-lo em água; mas, atenção, está escrito em todos os tratados que se deve despejar o ácido na água, e não o contrário, senão aquele óleo de aspecto tão inócuo pode sucumbir a cóleras furiosas, coisa que até os alunos do Ensino Médio sabem. Só depois se coloca o zinco no ácido diluído.

Na apostila estava escrito um detalhe que me escapara a uma primeira leitura, qual seja, que o tão terno e delicado zinco, tão solícito diante dos ácidos, que o devoram numa só bocada, comporta-se de modo bastante diverso quando se encontra em estado muito puro: nesse caso, ele resiste obstinadamente ao ataque. Disso se poderiam extrair duas consequências filosóficas contrastantes entre si: o elogio da pureza, que protege do mal como uma couraça, e o elogio da impureza, que dá acesso às transformações, ou seja, à vida. Descartei a primeira, intragavelmente moralista, e me detive na consideração da segunda, que me era mais congenial. Para que a roda gire, para que a vida viva, há de haver impurezas, e as impurezas das impurezas — inclusive nas terras, como se sabe, para que sejam férteis. É preciso o dissenso, o diverso, o grão de sal e de mostarda: o fascismo não os aceita, os proíbe, e por isso você não é um fascista; querem todos iguais, e você não é igual. Mas tampouco a virtude imaculada existe, ou se existe, é detestável. Então pegue a solução de sulfato de cobre que está na prateleira dos reagentes, acrescente uma gota dela a seu ácido sulfúrico e note que a reação tem início: o zinco desperta, se recobre de uma branca pelagem de bolhinhas de hidrogênio, e aí está, a mágica aconteceu, você pode abandoná-la a seu destino e dar um passeio pelo laboratório para ver o que há de novo e o que os outros estão fazendo.

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A Tabela Periódica. Zinco. © 1975, Primo Levi. Tradução: Maurício Santa Dias. Companhia das Letras, 2025.

Imagem: Primo Levi. Getty Images.

Tuesday, December 30, 2025

Zinco

Caselli adorava P. com um amor acre e controverso. Parece que foi fiel a ele por quarenta anos; era sua sombra, sua encarnação terrena e, como todos os que exerciam funções vicárias, era um exemplar humano interessante: quero dizer, como aqueles que representam a Autoridade sem propriamente possuí-la, como por exemplo os sacristãos, os guias de museu, os bedéis, os enfermeiros, os "jovens" dos advogados e tabeliões, os representantes de comércio. Estes, em maior ou menor medida, tendem a transfundir a substância humana de seus Superiores à sua própria figura, como ocorre com os cristais pseudomorfos: às vezes sofrem com isso, frequentemente sentem prazer, e possuem dois esquemas de comportamento distintos, a depender se agem por conta própria ou "no exercício de suas funções". Ocorre muitas vezes que a personalidade do Superior os invada tão profundamente, a ponto de perturbar seus contatos humanos corriqueiros, e que por isso permaneçam celibatários: de fato, o celibato é prescrito e aceito na condição monástica, que implica justamente a proximidade e a subserviência à maior das autoridades. Caselli era um homem modesto, taciturno, em cujos olhares tristes mas orgulhosos se podia ler:

— Ele é um grande cientista, e como seu "famulus" também sou um pouco grande;

— eu, apesar de humilde, sei coisas que ele não sabe;

— o conheço melhor que ele a si mesmo, prevejo seus atos;

— tenho poder sobre ele, o defendo e o protejo;

— posso falar mal dele, porque o amo: vocês não têm esse direito;

— seus princípios são justos, mas ele os aplica com displicência, e "antigamente não era assim". Se não fosse por mim...

... e de fato Caselli geria o Instituto com parcimônia e misoneísmo até superiores aos do próprio P.

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A Tabela Periódica. Zinco. © 1975, Primo Levi. Tradução: Maurício Santa Dias. Companhia das Letras, 2025.

Imagem: Primo Levi em 1980. Marcello Mencarini/Leemage

Saturday, December 27, 2025

Fotos inéditas de filhos de Augusto Malta revelam o Rio de 1937 a 1945

Fotos inéditas de filhos de Augusto Malta revelam o Rio de 1937 a 1945 e a demolição de 500 prédios para abrir a Av. Presidente Vargas

Conjunto de álbuns fotográficos redescobertos no Arquivo Geral da Cidade do Rio reúne imagens raras da capital entre 1937 e 1945 — período de profundas transformações urbanas que culminaram na abertura da principal avenida do Centro.

Por Larissa Schmidt, RJ2 27/12/2025

Um conjunto de álbuns fotográficos inéditos redescobertos no Arquivo Geral da Cidade do Rio revela imagens raras da capital entre 1937 e 1945 — período de profundas transformações urbanas que culminaram na abertura da Avenida Presidente Vargas.

As cerca de 14 mil fotografias, organizadas em 11 álbuns, mostram bairros, construções e modos de vida que desapareceram para dar lugar à maior via do Centro do Rio.

O material foi encontrado durante o trabalho contínuo de catalogação do acervo do Arquivo Geral, que reúne cerca de 4 milhões de itens identificados, além de outros milhões de documentos, fotos e registros ainda em processo de organização.

Segundo pesquisadores, os álbuns estavam guardados no fundo de um baú e representam um dos achados mais relevantes dos últimos anos.

As imagens retratam diferentes regiões da cidade, como Tijuca, Pavuna, Madureira e o Centro Histórico, incluindo a Praça 15.

Em muitos casos, revelam cenas pouco documentadas até então, como o interior de vilas operárias, trabalhadores em ação e aspectos do cotidiano de áreas que deixaram de existir.

"Não há tantos registros cronográficos oficiais do Rio nesse período. Essas imagens acabam revelando uma cidade até então desconhecida, mostrando tanto o que foi destruído quanto as novas construções", explica o presidente do Arquivo Geral da Cidade, Elizeu Santiago.

Entre os registros mais impactantes estão as fotografias da abertura da Avenida Presidente Vargas, iniciada nos anos 1940. Para a obra, mais de 500 prédios foram demolidos, incluindo igrejas, escolas, casarões e centros de caridade.

A transformação urbana se concentrou principalmente no trecho entre a antiga Praça 11 e a Candelária.

A Igreja da Candelária foi preservada após forte pressão popular.

Outras construções históricas, no entanto, não tiveram o mesmo destino, como a Igreja de São Pedro dos Clérigos, considerada uma joia do barroco carioca e que possuía interior talhado por Mestre Valentim.

As fotos também documentam o processo de demolição e construção, com destaque para a força de trabalho envolvida.

Operários aparecem no alto de edifícios, usando picaretas, martelos e até dinamite — tecnologias da época que ajudaram a redesenhar o Centro do Rio.

A reforma que deu origem à Avenida Presidente Vargas coincidiu com o período da Segunda Guerra Mundial e com o esforço de guerra global — um contraste que, segundo pesquisadores, reforça o caráter monumental da obra.

Fotos dos filhos de Augusto Malta

A autoria das imagens é atribuída principalmente a Aristóteles Malta e Uriel Malta, filhos de Augusto Malta, o primeiro fotógrafo oficial da cidade, cargo criado no início do século 20 durante a gestão Pereira Passos. Em parte das fotos, há assinatura ou identificação direta dos fotógrafos; em outras, a atribuição é feita por padrões técnicos e históricos.

Algumas imagens se destacam pela composição e pela força simbólica, como a de um trabalhador ao lado de um trator, com a Central do Brasil ao fundo, ou a de um homem observando as ruínas de uma área recém-demolida.

Para pesquisadores, os registros vão além do valor documental e ajudam a refletir sobre o impacto humano das grandes obras.

"A gente admira essas imagens hoje, mas é impossível não pensar como foi viver aquela transformação. Era a vida das pessoas que estava indo embora", avaliam.

Fim da Praça Onze

A abertura da Presidente Vargas também significou o desaparecimento da Praça Onze, um dos principais redutos culturais do Rio no início do século 20, marcada pela diversidade étnica, religiosa e cultural.

Foi ali que surgiram manifestações fundamentais da cultura carioca, como o samba e os primeiros desfiles de escolas de samba.

Com a demolição da área, muitos moradores — especialmente os que não eram proprietários — precisaram buscar novas moradias, o que contribuiu para o adensamento de comunidades em morros da cidade.

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Friday, December 26, 2025

26 de dezembro de 2016

RESSACA

Sabe por que 88% dos brasileiros acreditam que o "sucesso financeiro" vem de Deus? Porque nessa pironga desse país a gente não tem INSTITUIÇÕES. Aqui é cada um por si desde 1500 e depois de 13 anos falando em "política pública" a gente se iludiu achando que o paradigma tinha mudado. Não deu nem pro começo, Jão! Sabe essa festa da uva que virou o governo federal, onde manda quem pode, obedece quem tem juízo? É o cotidiano de qualquer pessoa que more afastada do Centro — esse lugar onde cê mora e que tem água, energia, varrição, luz no poste, asfalto, calçada, esgoto, alvará pra construir... Na perifa, fio, nos sertões, bem diferente do centro, presença do Estado, aquela que não falta mesmo, é, antes de mais nada, polícia. Pra fazer com bala de verdade o que eles andam fazendo com os nossos filhos nas passeatas — aqui no centro. O camarada que tem que sobreviver na jungle áspera, dura e forte, como dizia o Dante Alighieri já nasce sabendo que é na unha. Daí vai a gente que tem água, energia, varrição, luz no poste, asfalto, calçada, esgoto, alvará pra construir e PM gente fina comendo pão com manteiga na faixa na padaria do bairro, e diz que os caras da pesquisa são ignorantes. O cristianismo, aquele de 2000 anos atrás, inovou ao dizer que o ser humano resolve suas paradas falando diretamente com Deus, sem intermediários. É a invenção do individualismo no Ocidente. Vai dizer que cê não tinha percebido? A revolução a comunista é o oposto do individualismo. É a ideia da ação coletiva resultante dos embates sistêmicos do capitalismo. É proposta tão completamente mundana que incluiu sem nenhuma necessidade, diga-se de passagem o ateísmo em seu "corpus" ideológico. Somente figuras ambivalentes que nem o Frei Betto pra insistir nessa conversinha mole de que Jesus de Nazaré foi o primeiro comunista. Que a "solidariedade" cristã é o mesmo que o "igualitarismo" comunista. A mensagem do Cristo é coisa que se presentifica dentro de cada pessoa. Eu com o outro, eu com Deus. No limite, o cristianismo é antipolítico. O comunismo é radicalmente político. Eu perante a História. Que os dois sejam igualmente e insuperavelmente utópicos é outra discussão. O fato é que um é aqui e outro é no Céu. Um no tempo, outro na eternidade. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Assuma os seus B.O.s, sendo cristão, ou "de esquerda". Ou os dois. Mas não confunda. Enquanto isso, os brasileiros que creditam a si próprios e a Deus o seu sucesso, ou insucesso, veja bem, não têm nada de burros, ou manipulados. Instituição, no Brasil, é que é miragem. Instituições frágeis são o mecanismo clássico de manter o atraso. Nos países atrasados o bem público existe, mas é o mesmo que privilégio. Pegaria super bem se nós, os que ocupamos socialmente o lugar que tem água, energia, varrição, luz no poste, asfalto, calçada, esgoto, alvará pra construir, polícia, saúde, educação, ou seja, benefícios do ESTADO, portanto, PRIVILÉGIOS, largássemos o nosso farisaísmo de exigir dos outros o impossível e, com isso, deixasse de esconder da gente mesmo que a rapaziada tá correndo atrás de ter direitos sem esperar nada da gente. E, vendo bem, estão pra lá de certos... Cada um por si e Deus por todos.

Tuesday, December 23, 2025

Havertà

"Havertà" é palavra hebraica deturpada, tanto na forma quanto no sentido, e cheia de significados. Mais propriamente, é uma forma feminina arbitrária de Havèr = Companheiro, e vale por "doméstica", mas contém a ideia acessória de mulher de baixa extração, de crenças e costumes diferentes, que temos de abrigar sob nosso teto; a havertà é tendencialmente pouco asseada e, por definição, maliciosamente curiosa sobre os hábitos e as conversas dos donos da casa, a ponto de obrigá-los a recorrer em sua presença a um jargão particular, do qual decerto faz parte o próprio termo "havertà", além dos outros citados acima. Hoje esse jargão quase desapareceu; duas gerações atrás, ele ainda tinha algumas centenas de vocábulos e locuções, consistentes sobretudo em raízes hebraicas com desinências e flexões piemontesas. Um exame ainda que sumário revela sua função dissimuladora e subterrânea, de linguagem maliciosa destinada a ser empregada ao se falar dos gôjím e na presença de gôjím; ou ainda para responder ousadamente, com injúrias e maldições incompreensíveis, ao regime de clausura e de opressão instaurado por eles.

Seu interesse histórico é escasso, porque nunca foi falado por mais de alguns milhares de pessoas: mas seu interesse humano é enorme, assim como o de todas as linguagens de fronteira e de transição. De fato, ele contém uma admirável força cômica, que decorre do contraste entre o tecido do discurso, que é o dialeto piemontês áspero, sóbrio e lacônico, jamais escrito senão por milagre, e o enxerto hebraico, extraído da remota língua dos pais, sagrada e solene, geológica, polida durante milênios como o leito das geleiras. Mas tal contraste reflete outro, aquele essencial do judaísmo da Diáspora, disperso entre "os gentios" (isto é, os gôjím), estendido entre a vocação divina e a miséria cotidiana do exílio, e outro ainda, bem mais geral, inerente à condição humana, já que o homem é centauro, um emaranhado de carne e pensamento, de sopro divino e pó. Depois da dispersão, o povo judaico viveu longa e dolorosamente esse conflito e dele tirou, além de sua sabedoria, o sorriso que com efeito falta na Bíblia e nos Profetas. O iídiche é impregnado dele, e, em seus modestos limites, o era também a fala bizarra de nossos pais nesta terra, que aqui pretendo recordar antes que desapareça: fala cética e bem-humorada, que apenas em um exame distraído poderia parecer blasfema, ao passo que é, ao contrário, rica de uma intimidade afetuosa e respeitosa com Deus, Nôssgnôr, Adonai Eloénô, Cadòss Barôkhú.

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A Tabela Periódica. © 1975, Primo Levi. Tradução de: Maurício Santana Dias. Cia das Letras, 2025.

Imagem: Orizzontale Verticale. © 1978, Giorgio Griffa. LaM - Lille Métropole Musée d'art moderne, d'art contemporain et d'art brut.

Wednesday, December 17, 2025

17 de dezembro de 2020

 Se a gente conseguir sair por uns minutos da chave 'é preciso combater o Bolsonaro sem tréguas', está cada vez mais claro q seremos todos vacinados em algum momento em médio prazo.

Isto posto, é absolutamente indispensável continuar a combater o Bolsonaro; o pouco q avançamos até aqui desde o cataclisma de 2016 é resultado direto da diuturna resistência q aos trancos e barrancos o campo democrático e popular tem conseguido bancar.

A atitude do Bolsonaro durante a pandemia é genocida, não menos q isso, e exige ser enfrentada sem tréguas.

A vacina, porém, já é uma realidade. Assim como foi o auxílio emergencial. Personagens menos estúpidos q o Bolsonaro têm sabido tirar melhor proveito pessoal do caos instaurado no país. Oferecem o mínimo para capitalizar os resultados ao máximo. 'Cases de sucesso' mais bem acabados: Dória, Covas e Rodrigo Maia. Por isso não ficaremos sem vacinar.

Vai demorar mais q na Europa? Sem dúvida. Vai ser tudo meio bagunçado? ¡Por supuesto! O bloco de Esquerda vai ter q fazer das tripas coração para barrar a voracidade das bancadas do apocalipse no Congresso e conseguir avanços provisórios? Sim. Porque essa é a regra do jogo.

A partir da Constituição de 1988 havíamos presenciado progressos inegáveis. A universalização da oferta de vagas na Educação Básica, por exemplo. O SUS como referência mundial no combate ao HIV. A saída do Mapa da Fome. Mas o pano de fundo permanecera um lugar inóspito, moldado a partir de matrizes racistas, com pouca oferta de trabalho digno, violência descontrolada, escola, saúde e moradia de baixa qualidade, concentração de riqueza...

O Silvio Almeida disse, lá no começo do ano: 'a pandemia encontra o Brasil como ele é'. Ou seja, não há outro Brasil para onde possamos fugir até q as coisas melhorem.

Esta sabedoria do professor Silvio Almeida não por acaso vem de um homem negro.

As populações de baixa renda - quase 90% dos brasileiros - conhecem muito bem o q é viver à margem do Estado. O q é se equilibrar entre depender das instituições públicas e ter certeza de q em 100% dos casos vão ocupar os últimos lugares da fila.

A experiência de ser obrigado a aguardar o governo para se cuidar e a constatação de q não se dispõe de qualquer controle sobre como, quando e onde vai haver acesso ao cuidado está deixando o segmento branco e escolarizado da população em sobressalto. Tem um quê de inédito, para essas pessoas.

Faz lembrar os versos de 'Haiti', composição em parceria de Gilberto Gil e Caetano Veloso:

(...) "são quase todos pretos... ou quase pretos... ou quase brancos...

Quase pretos de tão pobres

E pobres são como podres

E todos sabem como se tratam os pretos"

As classes médias escolarizadas do Brasil - e a escolarização é o mais determinante marcador social entre nós - têm as benesses do Estado a seu favor desde que passaram a existir, nos tempos de Getúlio Vargas. Moradia, planejamento urbano, transporte, trabalho, escola, segurança, saneamento, água, luz, comida, saúde, lazer...

Durante a pandemia fomos os mais preservados. Por termos acesso a toda aquela lista de privilégios q o Estado nos garante há quase um século.

No processo de sobreviver ao coronavírus as classes médias escolarizadas já saíram 'na frente'. O sentimento, entretanto, de 'estar à mercê' - real, de modo algum imaginário ou ilegítimo - tem nos levado a berrar de maneira incansável.

Que bom. Ao contrário dos 'quase pretos de tão pobres' esse grito não cai tão facilmente no vazio.

É a estranha percepção de si mesmo como 'sujeito de direito', q só alguns no Brasil têm.

Pense no Haiti.

Wednesday, December 10, 2025

10 de dezembro de 2018


SESSÃO DA TARDE

Sempre que eu vejo o juiz Moro eu penso que ele poderia estrelar um filme de gângster chamado 'Os Intragáveis'. Ele seria o Idiot Néscio. Já o Ônix Lorenzoni, esse parece, mesmo, ele próprio, um gângster de filme. Eu acho até que eu já vi um ator que é a cara dele. Não sei se foi no 'Poop Fiction', ou no 'Al Cagone', do Rod Steiger. Terá sido no 'Anjos de Bunda Suja' com o James Cagney? Não tenho certeza. Pode ser naquele que tem o Dom Cocôrleone. Ou 'Porcos e Diamantes'. Mas tem também 'O Massacre de Chicago'... sei lá... alguma merda dessas...

P.S. Lembrei! Ele aparece em 'GoodFellas (da puta)', do Martin Scrotese.

Wednesday, November 26, 2025

26 de novembro de 2019

O Guedes, pinochetista raiz, usa a sombra do AI-5 pra nos meter medo. Ele, como todos os partícipes do Golpe, sabe que a memória da classe média solta faíscas quando alguém menciona a Ditadura de 1964.

Porém, antes de precisar fechar o cerco autoritário, a 'Aliança' desgovernante sabe que o esquema de gestão policial do Estado já funciona a pleno vapor para cerca de 90% da população brasileira.

Mais do que um aparelho repressivo centralizado como antigamente, o que Moro, Guedes e Bolsonaro têm à mão é a possibilidade de deixar o país entregue à sua própria lei-do-cão.

Anomia é o 'nome do jogo'.

Uberização do mundo do trabalho. Segurança para o capital especulativo 'na nuvem' do financismo global. Bala de fuzil e Caveirão para o convívio em sociedade.

Lembra No Country for Old Men. Lembra Blade Runner.

Tempos sombrios.

26 de novembro de 2022

A ordem é a seguinte: o Reinaldo Azevedo, filho-da-puta avant la lettre, que inventou "apenas" o termo 'petralha', esse você perdoa. A Vera Magalhães, você defende quando é atacada e esquece a virulência dos ataques dela defendendo o 'Moro enxadrista'. O Frota, não. O Frota você detona, não deixa ele abrir as asinhas, tá pensando o quê? Expulsa o Frota do grupo de transição. E o Mantega, quando o povo da extrema-direita fizer o mesmo, você não pia. Deixa o Mantega se foder sozinho, que nem quando ele foi preso na sala de espera da oncologia do Einstein. O Neymar, esse merece nossos melhores pensamentos, apesar do apoio incondicional que ele prestou ao Mijair e das 700 mil e tantas mortes que esse desgoverno carrega nas costas. É simples e a regra é clara: essa porra toda é aleatória e você deve se comportar como um cachorro de rua que fica esperando passar uma moto. Se a matilha correr atrás, você corre junto e late, mas late com toda a força. Se o motoqueiro cair, ponto pra sua galera. Se ele escapar, sempre tem outro passando logo mais. Se a cachorrada não se mexer, fica de boa. O importante é farejar a oportunidade e agir de acordo com o momento. E o momento a Deus pertence. Ah! Deus é o nome que se usava antigamente pra 'algoritmo'. Who let the dogs out?

Friday, November 21, 2025

‘Carneiros gays’ são salvos do abate por projeto de estilista de famosas com coleção de tricô

Edição digital Mundo / Época

‘Carneiros gays’ são salvos do abate por projeto de estilista de famosas com coleção de tricô

Produtores esperam que animais sejam reprodutores, mas mudanças no comportamento freiam planos de criadores. Animais são resgatados de matadouros e fazendas e se transformam em fornecedores de lã para confecção de roupas

Por The New York Times, Vanessa Friedman 20/11/2025

Michael Schmidt, colaborador do Chrome Hearts e estilista de rock n' roll de divas como Cher, Shakira e Sabrina Carpenter, ficou chocado ao ouvir falar das "ovelhas gays".

Ou, para ser justo, ele não ficou surpreso ao saber que alguns carneiros são considerados gays, ou "orientados para o sexo masculino", o que significa que se recusam a acasalar com ovelhas, um padrão comportamental observado em aproximadamente 1 em cada 12 carneiros e que os cientistas estudam há décadas. Em vez disso, ele ficou chocado ao descobrir o que acontece com muitas dessas ovelhas que fazem parte de grandes rebanhos em fazendas de produção — o tipo de estabelecimento onde, segundo Scott Carmody, chefe de operações domésticas da Woolmark, a proporção usual é de um carneiro para cada 50 ovelhas, e a função do carneiro é a procriação.

Se o carneiro não cumprir seu dever, geralmente é enviado para o matadouro.

— (Essencialmente) As ovelhas são mortas por serem gays — disse Schmidt.

Schmidt pensou que talvez a moda pudesse mudar a situação. Então, embora geralmente passe seus dias trabalhando com cota de malha e cristais Swarovski, ele uniu forças com a Rainbow Wool, uma organização sem fins lucrativos alemã criada por um fazendeiro na Vestfália que resgata ovelhas que não conseguem acasalar e as cria para a produção de lã, e com o Grindr, o aplicativo de encontros LGBTQ que se autodenomina o "bairro gay do mundo", para dar vida à história por meio de uma coleção de 37 peças de tricô.

Na semana passada, as peças de tricô foram exibidas no primeiro desfile de moda Rainbow Wool — embora chamá-lo de "desfile" seja, segundo Schmidt, um termo impróprio.

— É uma história sobre direitos dos animais — disse ele. — E é uma história sobre direitos humanos.

Segundo Tristan Pineiro, vice-presidente sênior de marketing de marca e comunicações do Grindr, é também “uma metáfora de como as pessoas gays são tratadas em todo o mundo”.

— As ovelhas gays são descartadas, esquecidas, vistas como sem valor — disse Pineiro. — Mas por meio delas, duas pessoas que jamais teriam se conhecido de outra forma, um criador de ovelhas alemão e um designer de Los Angeles, se conectaram e juntos criaram algo belo.

Numa época em que o mundo empresarial em geral se afastou de temas potencialmente controversos, o desfile de moda Grindr x Rainbow Wool é uma anomalia. Mas, segundo Schmidt, é exatamente por isso que ele é importante. Principalmente porque se concentra num tema — ovelhas fofas e adoráveis ​​— que pessoas de qualquer espectro político podem abraçar.

— Não vejo isso exatamente como moda — disse Schmidt. — Vejo como um projeto artístico. Está vendendo uma ideia, mais do que uma coleção de roupas, e a ideia que está vendendo é que a homossexualidade não faz parte apenas da condição humana, mas também do mundo animal. Isso desmente a ideia de que ser gay é uma escolha. Faz parte da natureza.

Pineiro foi mais direto:

— Não se pode dizer que as ovelhas foram corrompidas pela cultura woke.

Salvando as Ovelhas

Michael Stücke, de 52 anos, cofundador da Rainbow Wool, não tem a aparência de um ativista. Tímido e de óculos, ele passa a maior parte do tempo vestindo um agasalho verde-escuro que combina com seus campos. Ele cresceu em uma fazenda de gado e porcos e foi criado com certas expectativas: ele assumiria a fazenda da família, casaria e teria sua própria família para ajudá-lo nessa tarefa.

— Havia muita pressão — disse ele, em pé em um de seus pastos, com ovelhas circulando ao redor de seus joelhos. — O setor agropecuário na Alemanha é bastante conservador. — Ele falava em sua própria fazenda, com pouco mais de 40 hectares de pastagens verdejantes e carvalhos em Löhne, onde cria mais de 500 ovelhas, 35 delas carneiros resgatados com tendência à reprodução, além de possuir sua própria cardadeira para tratar a lã e prepará-la para envio à fiação.

Stücke sabia que era gay desde jovem, mas só se assumiu para os pais aos 24 anos. Quando o fez, acabou saindo da fazenda da família e indo trabalhar em uma fábrica de papel. Eventualmente, o interesse pelo ambientalismo o levou a começar sua própria criação de ovelhas. (As ovelhas ajudam a manter a saúde do solo usado para o cultivo de grãos.) Suas aventuras na criação o levaram a descobrir o destino dos carneiros não reprodutores e, em 2021, uma conversa com uma amiga, Nadia Leytes, os levou a fundar a Rainbow Wool.

— Estávamos conversando sobre ser gay e o que isso significa — disse Leytes, que trabalha em relações públicas no grupo de agências de publicidade Serviceplan. — E eu perguntei a ele se existiam animais gays e, em caso afirmativo, o que acontecia com eles? — Logo eles estavam tentando encontrar alternativas ao matadouro.

Então Stücke teve uma revelação: os carneiros têm uma vantagem que as ovelhas fêmeas não têm.

— Quando as ovelhas fêmeas engravidam, a produção de lã para — disse Leytes. — Mas a dos machos nunca para. — Ela e Stücke pensaram que a lã deles poderia ser uma oportunidade de negócio. Mesmo que, no início, a comunidade agrícola tenha considerado a ideia “controversa”, disse Stücke, e tenha zombado delas.

Tudo começou com três ovelhas. Agora, elas têm um porta-voz — Bill Kaulitz, vocalista da banda Tokio Hotel e influenciador digital alemão —, uma rede de matadouros e fazendeiros dispostos a vender seus carneiros não reprodutores e uma parceria com uma fábrica espanhola que transforma a lã em fios. (Como o rebanho é composto por diversas raças de ovelhas, incluindo Brown Mountain, Coburg Fox e Shropshire, a lã precisou ser tratada por uma fábrica especializada.)

Eles também possuem uma loja virtual que vende patches e bonés, cuja renda é destinada a instituições de caridade LGBTQ+, além de oferecerem patrocínios para ovelhas.

— É uma vitória tripla — disse Leytes. — A comunidade ganha, as ovelhas ganham, a fazenda ganha.

O que a Rainbow Wool não tinha até a entrada do Grindr, no entanto, era alcance global. Foi por isso que, em meados de 2024, Leytes contatou Pineiro, contando-lhe sua história. (Naquele momento, Stücke nunca tinha ouvido falar do Grindr.)

— Imediatamente pensei que precisávamos nos envolver nisso — disse Pineiro. O Grindr recrutou Schmidt, que visitou Stücke e suas ovelhas este ano.

Os dois homens criaram um laço por compartilharem a vida na fazenda — Schmidt também cresceu em uma família de agricultores, embora no Meio-Oeste americano — e pelo isolamento que sentiam por ser um jovem gay. Quando Stücke fala sobre a visita, ele se emociona. Ele costuma se emocionar ao descrever o apoio que começou a receber depois de anos se sentindo ostracizado.

— Significa muito para mim que alguém tão distante, tão famoso e vindo de um mundo tão diferente esteja reservando um tempo para visitar as ovelhas e fazer algo com a nossa lã — disse ele, enxugando os olhos.

Gladiadores, professores de educação física e um garoto da piscina

O que exatamente Schmidt decidiu fazer com a lã — todas as 30 caixas de fios que chegaram da Alemanha — pode ter surpreendido Stücke.

— Eu realmente queria explorar a temática gay — disse.

Ele estava sentado em seu estúdio em Los Angeles, um galpão que parecia uma mistura de oficina de metaleiro com o departamento de figurinos do MGM Grand. Vestia uma camiseta desbotada do INXS e calça jeans preta, com várias pulseiras de prata cravejadas em cada pulso. Em uma parede, caixas de cristais; em outra, chaves inglesas e alicates de corte. Diversos pôsteres de seus clientes famosos usando suas criações estavam espalhados pelas paredes.

No andar de cima, há uma espécie de escritório estilo loft onde Schmidt guarda algumas de suas peças favoritas, como o look de fada techno que ele criou para Doja Cat usar em sua apresentação no encerramento da recente celebração da Vogue World, embora muitas estejam no museu da Swarovski na Áustria ou em museus de verdade. O Museu de Arte do Condado de Los Angeles, por exemplo, possui o vestido impresso em 3D que Schmidt criou para Dita Von Teese em 2013, que por acaso foi o primeiro vestido totalmente articulado impresso em 3D já feito.

Agora, ao lado dos vestidos de coquetel metálicos, havia um cabideiro com várias peças de tricô. Com carta branca para o desfile, Schmidt decidiu se concentrar nos arquétipos gays mais clichês: o garoto da piscina, o professor de educação física, o astro do rock. Cada peça, incluindo as sungas estilo Speedo nas cores vermelha, branca e azul, foi tricotada à mão por Schmidt e Suss Cousins ​​(autora de Hollywood Knits) ou, no caso de acessórios como uma espada de gladiador e uma pizza de entregador de pizza, feita em crochê. Se o Village People fizesse sua própria versão de “Magic Mike”, seria algo assim que eles usariam.

— As pessoas tendem a reparar em coisas que são sensuais — disse Schmidt. — Elas são atraídas por isso, especialmente se houver humor envolvido. Então eu pensei: 'Bem, essa é uma boa maneira de chamar a atenção, o que leva à história.

O conceito é exageradamente kitsch, mas se você deixar de lado a história e se concentrar apenas nas peças de roupa, o que você vê é essencialmente uma linha de polos de malha, shorts e roupões com um toque preppy. Uma linha com potencial comercial. As roupas funcionam tanto como figurino — Pineiro disse que o Grindr pode levar as peças originais em turnê no próximo ano — quanto como produto. Schmidt disse que estava considerando mostrar algumas peças aos compradores da Maxfield, a boutique de luxo de Los Angeles, e vender outras em seu próprio site de e-commerce, com a renda revertida para a fazenda. (Ele já patrocina um carneiro.)

— É uma lã muito boa e resistente — disse Schmidt. — Tem um toque agradável e luxuoso, e é muito macia ao toque.

No mínimo, Schmidt espera que, ao divulgar a informação, os agricultores de diferentes países se inspirem a adotar a abordagem de Stücke e a resgatar seus próprios rebanhos que, de outra forma, poderiam ser enviados para o matadouro.

— Este é o momento de defender os direitos humanos e os direitos dos animais — disse Schmidt. —Estamos vivendo um período realmente difícil.

E embora o próprio Stücke não esteja presente na apresentação da coleção (seu marido foi diagnosticado com câncer há alguns meses e ele precisa ficar com ele na Alemanha), o desfile praticamente transmite sua mensagem por si só. Seu título: “Eu sobreviverei”.

https://oglobo.globo.com/mundo/epoca/noticia/2025/11/20/carneiros-gays-sao-salvos-do-abate-por-projeto-de-estilista-de-famosas-com-colecao-de-trico.ghtml

Thursday, November 20, 2025

20 de novembro de 2016

O mundo, de maneira nenhuma, nem nunca, corresponde à binariedade do Facebook. Pão, pão, queijo, queijo, aquilo e não aquilo outro, macho, fêmea, claro, escuro, isso apenas não existe. Durante 3 anos, todos os dias, sem faltar um único sequer, li e postei procurando escolher uma perspectiva - e não duas - sobre as pautas que a rede apresentou. Não se tratou de "achatar" a realidade, ignorando os múltiplos planos que inevitavelmente a compõem. Foi o esforço de adotar um ponto de vista para ser visto. Em política, vale a posição que se assume. Não há espaço, na política, para o "que se tem em mente". A mente é lugar do incomunicável, do íntimo que não se acessa. A política, ao contrário, é das praças, do público. E só a posição que se assume traduz o íntimo do "actante" político. Todas as vezes que me meti a tirar chinfra de dialético, o Facebook trouxe, na mesma hora, alguém pra pegar um dos elementos da antítese proposta, eleger como o "meu equívoco" e, ato contínuo, abduzir o debate para um dos dois pólos e matar a análise. 'Dia' de dialética, é o mesmo 'dia' de diálogo e diabo. O amigo inconveniente, no entanto, é que estava certo. Política não é análise. Mas, divago.

Assumir a posição inegociável de "dilmista", que é o que eu vinha dizendo, tomei como principal atitude desde as Jornadas de Junho de 2013, foi o modo de comunicar que, entre todas as facetas do cubo mágico insolúvel da conjuntura Brasil, aquela - e não outra - era a que eu escolhi como a melhor. O lugar unívoco, não ambíguo, é o corolário da política. Pois a política é a invenção humana que institui a presença do outro. Fora da política, o outro é o bárbaro. É o invasor. A política, enquanto espaço de disputa, legitima a existência do outro. Instaura o respeito. Por tudo isso, desmisturar é fundamental para a prática política. O mundo permanece dialético. Contraditório. Irredutível ao "um". A política não muda o mundo. A política estabelece consensos transitórios. Tensos porque fugazes.

Houve, no entanto, uma mudança. Nosso mínimo arcabouço institucional voltou ao pó de onde viera. As pequenas conquistas derivadas do frágil pacto advindo da Constituição Cidadã de 1988 estão, Deus queira momentaneamente, suspensas. Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína. Por isso, tudo que não seja o pasmo, hoje soa, a meus ouvidos, farsa. Hashtags me dão no saco. Previsões, mesmo as mais obviamente apocalípticas, parecem negacionismo. O que prever, diante do caos? Como assumir posição em terreno movediço? Como "tocar a bola pra frente", se as regras do jogo foram abolidas?

Poderia esticar esse textão até transformá-lo na diatribe mais inócua de todos os meus domingos ensolarados lá fora, mas não há mais nada que eu tenha a dizer a mais. Nenhuma "chave de ouro", frase bacana, conclusão, nem pós-vendas. É aqui, no lugar suspenso dos apalermados, que me encontro. Quer dizer, perdido.

Friday, November 14, 2025

14 de novembro de 2018

Não parece tão complicado. Nós fomos derrotados porque o terço dos eleitores que fica ao Centro com leve tendência à esquerda foi parcialmente capturado pelo bolsonarismo. O terço que fica ao Centro e se inclina à Direita, esse se voltou inteiramente para o bolsonarismo. Esses votos iam, em grande parte, para o PSDB. Com o desmanche dos tucanos a Centro-Direita adernou pro lado do atraso. O pedaço do espectro que se inclinaria pra esquerda não veio inteiro pro nosso lado, como nas eleições de 2002 a 2014, porque o Edir Macedo puxou pro polo oposto. Dilma e Lula se desdobravam para conseguir votos evangélicos porque tinham plena consciência de que parte decisiva da população brasileira está cada vez mais conectada aos cultos neopentecostais. Sem eles, Lula e Dilma sabiam muito bem, ninguém ganha eleição no Brasil. A guerra híbrida via WhatsApp teve papel decisivo, mas o que está na base do resultado é um fato aritmético: o campo democrático, ou progressista, padece da falta de eleitores. Somos poucos. O 'lulismo' atacava a questão de frente: é preciso aglutinar forças. 'Edir Macedo' é, aqui no texto, linguagem figurada. O todo pela parte. Conseguir voto no Brasil é convencer os pobres a comparecerem às urnas. Quem está mais perto dessas populações tem mais chances de convencê-las. E as igrejas evangélicas estão. Lula e Dilma sabiam disso. Por isso pactuavam. Para em seguida agir como anteparos à voracidade de eventuais vendilhões do templo. Fala-se muito em retorno às bases, mas deixa-se de lado que o PT só ganhou eleições para presidente quando trouxe para si os votos de milhões de brasileiros que não se interessam por trabalhos políticos de qualquer natureza. A igreja tem papel decisivo neste estado de coisas. Estamos falando de um país com mais de 200 milhões de habitantes. O eleitor que pode ser classificado 'de esquerda', é provável, não alcança a casa das dezenas de milhões. Uma piada dos anos 80 dizia que caberíamos todos em duas, ou três kombis.

14 de novembro de 2018

A defesa do 'retorno' do PT às bases precisa necessariamente explicitar a que 'bases' se refere.

Em 1989 o partido tinha como eleitor 'padrão' o trabalhador especializado dos grandes centros urbanos. Metalúrgicos e bancários, por exemplo. CUT e MST, tinham, respectivamente, 6 e 5 anos de existência, eram recém-nascidos. Existiam e atuavam, também, na época as Comunidades Eclesiais de Base, que não eram petistas em sentido estrito. Acrescente-se aí as juventudes estudantis e os intelectuais formadores de opinião. Era esse perfil complexo que puxava os proverbiais 30% de fidelizados cada vez que se abriam as urnas.

Na virada do século XXI os Fóruns Mundiais acrescentaram ao PT marcas importantes que associariam sua imagem à dos chamados movimentos populares que ganharam força a partir da Constituição de 1988 e da chegada do Terceiro Setor. Claro que essa configuração fez crescer ainda mais o PT, que também teve tempo para ganhar e administrar importantes capitais. Ao mesmo tempo, CUT e MST evoluíam a passos largos.

Todos esses grupos de militância estiveram presentes na fabulosa festa da posse de Lula em janeiro de 2003. Mas, antes disso, o PT havia sido derrotado por Fernando Collor e duas vezes por Fernando Henrique Cardoso (em primeiro turno).

Foi preciso a 'Carta aos Brasileiros' para que o projeto dito 'de esquerda' durante duas décadas fosse aceito majoritariamente pelos brasileiros em disputas presidenciais. Antes disso, estava claro, as bases não eram suficientes para levar Lula, nem o PT, ao Planalto.

Lula, como se sabe, foi reeleito com certa folga e saiu da presidência com mais de 80% de aprovação. Seu 'poste', Dilma Rousseff, nadou de braçada todo o primeiro mandato. Na crista de uma onda benfazeja na economia? Sem dúvida. Mas também operacionalizando um largo arco de alianças que, fundamentalmente, consistia em garantir os votos do eleitorado conservador liberal, o chamado 'centro' do espectro. A conta é simples. 30% dos eleitores são fiéis ao PT, 30% querem ver o PT e todos os petistas pendurados pelo pescoço e 30% formam um grupo a ser permanentemente disputado.

Não há trabalho de base a ser feito em relação a esse último pedaço do eleitorado. Trata-se de cidadãos de perfil conservador e que já têm seus referenciais políticos e sociais definidos. Esse grupo vai à Igreja. Mas não necessariamente 'obedece' ao pastor. Pode votar no PT, mas se identifica mais com o PSDB. Ao articular alianças de amplo alcance, Lula tirou votos dos tucanos que, vendo-se em queda acelerada, abraçaram a Direita. O resultado é que foram tragados por ela ao pretenderem dirigir um golpe para o qual não tiveram coragem de dar o rosto.

Se, 'voltar às bases' significa fortalecer os movimentos sociais e implementar ações que remetem às Comunidades Eclesiais de Base para atuar num campo de oposição que entende a disputa democrática para além das eleições (como propõe, por exemplo, o professor Luiz Felipe Miguel), a ideia de 'retorno' se aplica e pode ser muito oportuna.

Se o assunto for ganhar a presidência em 2022, estaremos falando de uma base que sempre deu consistência ao projeto do partido, mas que não decide eleição. A articulação que levou Lula e Dilma quatro vezes sucessivas ao governo dava prioridade a concorrer em condições de vitória e, para isso, precisava se congregar com forças sociais e eleitorais que podem ser, e muitas vezes são, estranhas à ideologia do PT.

O que há, e isso parece ainda não estar claro nas análises pós-tsunami bolsonarista, é uma nova base, essa sim, eleitoral, e não ideológica, surgida nos estados beneficiados pelas políticas de valorização dos salários, distribuição de renda e investimentos no setor produtivo e na infra-estrutura. Não se trata de 'retornar' e sim de consolidar essa base. E também não tem nada a ver com 'educação política'. A vida dessas populações se transformou no período Lula e Dilma. Essa transformação já resultou em vitórias acachapantes dos candidatos do campo democrático e popular. O assunto, no caso, é: o que será preciso fazer para que esse ciclo virtuoso não se interrompa? Ou em outras palavras, quem, eleito, pode se colocar a favor dessa nova realidade que o reacionarismo brasileiro quer destruir?

Wednesday, November 12, 2025

12 de novembro de 2018

Se o general Viddas Boas tá falando em público sobre esse tal de 'limite' da intervenção, imagine os papo que rola nas internas!

Eu sou um dos caras mais zé ruelas que eu conheci na vida. Sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes, blá-blá-blá e sem condições psíquicas de entender como é que se produzem conspirações, tráfico de influência, bem-bolados, acordos, negócios e outras mumunhas mais. Resultado: sou uma desautoridade desconstituída. Nem o cachorro do vizinho dá atenção pras minhas ordens. 

Por exemplo: eu não consigo me interessar por entender como o PT se divide em facções, digo, tendências. Eu sei que elas existem. Que são fundamentais para a vida do partido. Sei mais ou menos quem, entre os mais famosos, anda com quem. Mas é até aí que eu vou. Senso prático: aprendi, durante o impeachment, a não contar com o Rui Falcão. Não vi necessidade de saber nada sobre as disputas internas do PT para perceber que dali não sairia coisa alguma.

Diferente eu vejo a Gleisi Hoffman agora. Daqui daonde observo ela é a representação cristalina de um grupo que pegou pra si a tarefa que, salvo engano, é a mais necessária para o campo democrático no Brasil atual: garantir a integridade física e política do presidente Lula e lutar por sua liberdade. Que não é nada menos do que lutar pela integridade da República. 

Lula é o maior líder popular da história do Brasil. Talvez o mais importante da América Latina. Sem dúvida um dos maiores do mundo. Lula está preso. De modo inequivocamente injusto e partidarizado. Gleisi, sempre que aparece, está, de alguma forma, noticiando que segue em vigília, dedicando-se em tempo integral à integridade do Lula.

Pode ser que, nas internas, Gleisi não seja nada disso e defenda interesses escusos, talvez o próprio Lula seja o oposto do que pensamos. Para o que estou dizendo, isso é indiferente. Os números da eleição não deixam dúvida sobre a importância de Lula para o Brasil. E a presença de Gleisi tampouco. Ela, goste-se ou não, é quem não deixa esmorecer o entusiasmo. É imperativo tirar Lula da cadeia e provar sua inocência.

Me pergunto sempre por que foi que as lideranças do campo democrático não foram até as últimas consequências no momento de impedir o ataque à democracia e à República que foi o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Declarações como a do general Viddas Boas ajudam a pensar melhor o problema. Se em público ele admite que o Exército poderia intervir para que um habeas corpus não desse a Lula a liberdade, imagina o que esses caras não falaram por telefone, ou mandaram dizer através de emissários!

Inside information é pra quem pode, não é pra quem quer. Eu não posso e nem quero. Mas admiro quem tem. É quase obrigatório munir-se de boas e sigilosas fontes para desenvolver certos trabalhos jornalísticos. Quem é da lida partidária também não pode viver sem elas. Diferentes são os oráculos de Facebook, adivinhando o passado em bolas de cristal que ninguém sabe onde guardam. Transformando grandes arcos históricos em tiaras coloridinhas do varejo de notícias dessa enorme rua 25 de Março que são as redes sociais.

Do meu ponto de vista zé ruela, a luta pelo #LULALIVRE tem uma cara. Multiconstruída, não há dúvida. Mas, nela, os traços da Gleisi Hoffman aparecem inconfundíveis.

Monday, November 10, 2025

10 de novembro de 2016

Sendo melhor, igual ou pior que a Hillary Clinton, Donald Trump é um representante da chamada "Extrema Direita". Fenômeno com o qual ainda não tivemos que lidar para além do histrionismo de figuras que se fantasiam com roupas do exército brasileiro, saem em passeatas de meia dúzia, ou postam vídeos caseiros constrangedores. O que NÃO quer dizer que NÃO estejam em ascensão pelo mundo afora. A França, por exemplo, tem a Marine Le Pen. Se alguém não notou, ela foi a primeira a faturar na mídia comemorando a vitória do alaranjado maluco. Aqui foi o Bolsonaro quem sacou de imediato o potencial que o "alinhamento" à gestão Trump tem para alavancar seus planos eleitorais. O brasileiro, para os EUA, agora, mais que nunca, é apenas um "porco latino" a mais? Of course, my horse. Mas quem disse que a turma do Bolsonaro sonha em ir pra Miami lavar pratos? A Extrema Direita é nacionalista. O barato dessa gente (diferentemente do coxa-creme Ralph Lauren que sonha em viver na gringa) é permanecer no lugar de origem, só que dando as ordens. Ou melhor, dando porrada em quem "subverter" a ordem. Xenofobia, racismo, misoginia, sexismo, ódio de classe, homofobia, violência, tudo isso que compõe a base das sociedades patriarcais do Ocidente e que tem permanecido sob relativo controle desde os pactos universalizantes do pós-Grandes Guerras, lateja a cada dia com mais força, querendo vir à luz. Diferentemente do mero conservadorismo, a Extrema Direita substitui o regramento institucional pela ordem da horda. Não à toa, Bolsonaro é um clã. Assim como os Le Pen. Os Bush do Texas, os Clinton do Arkansas, os Neves de Minas Gerais, ou os Dória da Bahia, formam famílias também, mas nenhum pode ser rigorosamente classificado sob o rótulo "Extrema Direita". É uma completa perda de tempo, nessa discussão, elencar os prejuízos que Bushs, Clintons, Neves ou Dórias causam ao mundo. Disso ninguém duvida. Bobagem igual é imaginar que o Brasil sob Temer terá qualquer relevância no xadrez geopolítico planetário. No limite, é verdade, pra nós não muda nada, se Trump, ou Hillary. A novidade é que, desde ontem, os vermes que infestam as caixas de comentários dos portais da internet all over the world têm um presidente americano pra chamar de seu. Empoderaram o lúmpem. Daí não pode vir nada bom. No país da "cordialidade", do "patrimonialismo", do controle social genocida, o que menos precisamos é de Bolsonaros a mais. Já os temos de sobra. E, no entanto, eles estão se multiplicando. "Give me a break". Não há nenhuma justificativa para minimizar esse enorme problema.

Sunday, November 02, 2025

2 de novembro de 2018

Mudando o mood, saindo um pouco do deboche, é evidente que a eleição do Bolsonaro acendeu em todo mundo o temor da tomada do poder pelo Exército brasileiro (em algum tipo de combinação mais ou menos explícita entre FFAA e setores da sociedade civil). Pois eu tenho um palpite. O Exército, em sentido estrito, vai permanecer 'na dele'. Uma, porque nada indica que teremos ações de resistência que venham a justificar o chamamento de soldados; outra porque já temos tudo o que é necessário para viver em estado de exceção, próximos à experiência de uma Ditadura. E se chama Polícia. Aliás, nos períodos mais tenebrosos de Hitler e Stalin (e regimes totalitários posteriores), a rotina da repressão sempre esteve a cargo da polícia, não do exército. Hannah Arendt se refere constantemente a um 'Estado Policial': a autoridade que tem poder para gerenciar, quarteirão a quarteirão, as delações, as propinas, a vigilância, os enquadramentos, o uso seletivo da violência. Nas periferias essa é a lei vigente desde a invenção da Polícia Militar. Recomendo a leitura de O Crime pelo Avesso: gestão dos ilegalismos na cidade de São Paulo, da professora Alessandra Teixeira. É aterrador, mas muito instrutivo. Aquilo que para as populações pobres do Brasil é claro como a luz do dia, pode estar chegando ao centro do poder político de uma maneira para a qual a esquerda, fenômeno de classe média, não está preparada. Neste contexto, claramente autoritário, os bate-paus por excelência dos governos são as polícias. E se no Exército Bolsonaro será eternamente um oficial de baixa patente e, portanto, passível de, a qualquer momento, ser rejeitado, entre as polícias, tem ficado nítido, ele é ídolo. Com a figura de um Ministro da Justiça 'justiceiro', temos a 'tempestade perfeita' se armando sobre a frágil democracia brasileira.

Saturday, October 18, 2025

18 de outubro de 2016


LUZ, CÂMERA, AÇÃO

O cinema americano é repleto de advogados. O advogado cai bem para a tradição hollywoodiana porque encarna convincentemente a solitária jornada do herói. No mais das vezes ele representa nos filmes a experiência do homem comum em luta pela restauração da normalidade da lei. Sempre que o equilíbrio do mundo se vê abalado, os roteiros americanos escalam um "anybody" para protagonista do drama que põe de volta as coisas no lugar. O cowboy, o soldado, o policial, o professor, o jornalista e tantos outros, cada um à sua maneira, traduzem a capacidade que o indivíduo tem de tornar-se responsável pela mobilização de uma verdadeira teia de ações e reações, cujas consequências são tão imprevisíveis quanto inevitáveis. O happy end há tempos deixou de ser obrigatório, mas segue como o desfecho mais frequente para essa encenação do mito do eterno retorno à ordem natural da sociedade. O advogado, então, é aquele que ao tangenciar os limites estritos do que é considerado legal, realça as contradições sistêmicas da Justiça enquanto instituição. É o esquema dramático grego por excelência que Hollywood sabe, como ninguém, atualizar, diluindo-o na medida exata da catarse de entretenimento.

A arte do roteiro americano tem, porém, par a par com a construção das narrativas universalizantes e arquetípicas, seu viés narcisista. Hollywood não consegue evitar ser confessional. E, sendo a locomotiva da segunda, quiçá primeira, mais importante indústria dos EUA, odeia advogados e seus milionários "casos". Steven Spielberg é especialista em zombar deles incluindo menções em cenas secundárias de seus blockbusters. Em 'O Parque dos Dinossauros' um homem em pânico tenta se esconder de um monstro pré-histórico num prosaico banheiro químico. Farejado, é pego em pose ridícula, de cócoras sobre o vaso sanitário. Vira comida, sem piedade. Sua profissão? Advogado. Num outro filme, conta-se a seguinte piada: "Sabiam que estão substituindo as cobaias por advogados em pesquisas científicas? São dois os motivos: um, o pessoal do laboratório se apega menos. Depois, tem coisa que rato não topa fazer".

A relação de amor e ódio que Hollywood mantém com os advogados conta muito do ethos de um país que, ao mesmo tempo, se ergue sobre a crença emancipatória contida na defesa da igualdade de direitos e mantém em funcionamento as mais cruéis e genocidas práticas dentro de seu próprio território. O advogado - de filme - corporifica o Davi que vence, contra todas as expectativas, o gigante. O advogado da vida real é, para o big business estadunidense, a figura que pode roer-lhe pedaços, a pequena ameaça que, se não destrói, tem a manha de irritar profundamente. O personagem advogado mobiliza para a ação, é político, lidera processos. O advogado de carne e osso, pela via jurídica, "abre" processos, "move" ações.

Em comparação, o cinema brasileiro que, cada vez mais, adere ao mainstream de roteiro, fotografia e montagem de padrão hollywoodiano, já tem justiceiros, novos ricos, seres magicamente transformados, incorreção política, espiritismo e toda sorte de clichês narrativos, mas, salvo engano, nenhum advogado. A adoção de fórmulas na arte, ou, pelo menos, na comunicação, esbarra no limite do incompreensível. O Judiciário brasileiro é marcado, antes de mais nada, pela exclusividade do acesso, seja para o usuário ou para o profissional. Sua mais recente metamorfose acontece, acrescente-se, pela valorização dos concursos públicos e os concursos, ao restringirem, pela dificuldade das provas, os reais concorrentes a gente que vem de histórias de vida privilegiadas, acabaram por fortalecer uma espécie de casta encastelada no Estado. Uma coisa é imitar um filme americano de guerra de gangues numa favela do Rio, como 'Cidade de Deus'. Ou vestir como policial um personagem atormentado por dilemas shakespearianos e assim liberá-lo para cometer todo tipo de atrocidades, como em 'Tropa de Elite'. No Brasil, o advogado herói é uma espécie de impossibilidade estatística. Seria tão verossímil quanto um astronauta, ou um samurai tupiniquim. A Justiça no Brasil reforça abertamente nosso milenar patrimonialismo. Não temos, entre nós, o mito fundador da equidade. Como se Davi não tivesse nunca a chance de encontrar com Golias: falta o campo de batalha. O Judiciário tem a forma, não de um campo, mas de um enorme muro sem brechas. No filme de advogado made in Brazil, baseado em fatos reais, a gente morre no fim. Do lado de fora.

Tuesday, October 14, 2025

14 de outubro de 2015


 AS YOU LIKE IT

A manchete de hoje poderia ter sido:

"Apenas 33% dos leitores da Folha desaprovam a Gestão Alckmin".

Ou, então:

"67% dos leitores da Folha consideram o Congresso ruim ou péssimo".

Também cabia:

"Fernando Haddad tem 56% de reprovação entre leitores da Folha".

Ou mesmo:

"64% dos leitores da Folha acham que a crise tende a piorar nos próximos meses".

Mas, claro, a opção foi: "61% dos leitores querem renúncia de Dilma".

E apenas no subtítulo: "Pesquisa Datafolha feita - COM O PÚBLICO DA FOLHA - mostra que 77% classificam o governo como ruim ou péssimo".

Não é uma pesquisa sobre o Governo, embora pareça. É uma matéria sobre perfil de leitores do jornalão do Frias Filho.

O perfil que todo mundo já sabe qual é:

"Metade dos entrevistados (48%) tem renda familiar mensal superior a dez salários mínimos, 76% têm ensino superior, 83% são do Sudeste, quase 60% não têm partido de preferência, mas 59% votaram em Aécio Neves (PSDB) no segundo turno da eleição presidencial de 2014".

O aspecto mais relevante, sendo esta uma pesquisa de perfil de consumidor, e que, disparado, mereceria a manchete, diz respeito à percepção que o leitor tem do lugar que o jornal ocupa no espectro ideológico:

"O maior grupo de leitores (30%) posicionou a Folha como uma publicação de centro-direita. Para 26%, o jornal é de centro. Outros 22% o identificam como de direita. O jornal é visto como de centro-esquerda por 12%. E de esquerda por 5%".

A miopia política dos 5% que a classificam "à esquerda" está longe de desmentir o que já se sabe, mas a pesquisa comprova: quase 90% desses leitores altamente identificados com a linha editorial da Folha têm perfeita consciência das convicções políticas que o jornal defende. 

Na prática, os resultados da amostragem confirmam a clara via de mão dupla entre o que se publica e o que se espera que a Folha publique. Em detrimento, é claro, da proverbial imparcialidade que a propaganda anuncia há décadas.